16 - Nassib
Sálua já
estava em estado avançado de gravidez: seria o quarto filho. Sua barriga estava
crescida e alta. Não queria saber se era menino ou menina. Queria outro filho
perfeito, como os anteriores. Sonhava: a inteligência da Alice, mais a beleza e
alegria da Renée, mais a habilidade e gostosura de Labib seria igual a ... Seria menino? Seria menina? Ah, logo
saberia. Bastava que fosse um nenê perfeito.
Do mesmo
modo que os outros partos, uma noite, Sálua sentiu a bolsa arrebentar e não deu
tempo pra nada: a parteira chegou voando carregada por Alfredo e quase encontra
o bebê nos braços da orgulhosa mãe.
Pois era o Nassib, chorando a plenos
pulmões, avisando a todos que chegara pra mudar tudo que estivesse
estabelecido. Sua gritaria chamou a atenção até de quem passava na rua. Ele não
era de chegar despercebido, não. Chegara pra valer. Pra fazer valer seu direito
perene de ser o centro das atenções. E
merecê-las.
Desde pequeno, seu temperamento alegre, brincalhão, mexendo com todos, e aprontando artes, conquistava quem dele se aproximasse. Tinha um brilho no olhar, uma vivacidade e um jeito de brincar tão agradável que logo se tornou uma das principais figuras da família Neme.
Labib e Nassib, que dupla invencível! Labib recebeu Nassib como se pode receber o irmão amado. Sem ciúmes, sem invejas, na expressão dos pais: ahlaosahla! Seja bem-vindo, irmão. Sempre seremos amigos. Passaram a infância com brinquedos comuns aos dois, não existia meu ou teu: só o nosso. Tinham muito engenho e estavam a todo instante construindo algo para se entreter, com afinidade e alegria. Brincavam de tudo e tinham boa roda de amigos em Piratininga. Só quando mais moços, já morando em Bauru, é que teriam amigos próprios. Mas um seria sempre o melhor amigo do outro. Todos os dias, até os últimos anos de vida de Nassib, que Deus chamou primeiro, trocariam, durante todos os dias, inúmeros telefonemas um ao outro. Assuntos? Negócios, família, consultas e pataquadas.
Quando éramos pequenos, (isso contado por minha mãe), estávamos todos, à mesa, nove filhos, mais avó, família numerosa, sentados como anjinhos ( papai era durão nessa época; explico: quando virou avô, ficou um doce) e, de repente, um dos filhos começava a choramingar e a se agitar. Era obra do Nassib, dando chutes por baixo da mesa, ou beliscões. Então ficou padrão: quando um de nós começasse a se agitar, demonstrando aborrecimento, só poderia ser arte do Nassib.
Dele ressaltemos a beleza inenarrável de seus olhos castanho-claros, de cílios longos e negros.Acho que nunca vi olhos castanhos tão incríveis! Verdadeiros poemas de luz! Hahahá! O bagunceiro não podia esconder seu romantismo com aqueles olhos! O traquinas e mexedor também tinha este lado,
só revelado quando começou a namorar. Depois escancarou o romantismo que boiava
em seus olhos, ao eleger Roberto Carlos e Júlio Iglesias seus cantores
prediletos. E também Martinho da Vila, com seu “já tive mulheres" .
Como Labib, fez o então primário em Piratininga e, depois, continuou os estudos em Bauru, no Colégio Guedes de Azevedo.
Iam e voltavam de trem, Nassib aprontando muito na escola, na estação, no trem, na hora da chegada do trem.
O chefe da estação procurou minha mãe e relatou que o Nassib, na ânsia de chegar em casa, pulava do trem em movimento, atitude proibida além de perigosa.E pintou a cena com cores tão terríveis que minha mãe se apavorou e forçou Alfredo a pensar em sair de Piratininga e morar em Bauru.
E, assim, Alfredo, mesmo um pouco a contragosto, mudou-se de Piratininga.
Depois do curso técnico de contabilidade, Nassib ingressou na faculdade, FAAP, no curso de Economia. Portanto, ficou em SP, durante esse tempo de estudo. Morou numa pensão de estudantes, na Avenida Angélica. Seus estudos iam bem, até que ele resolveu que não era por aí.
Alguns anos mais tarde, reiniciou os estudos, agora Curso de Direito , em Uberaba, MG. Dois anos se passaram e novamente aquela certeza de que não era esse o caminho. Seu dom era outro, atávico. O comércio o chamava e, finalmente, resolveu atender aos seus apelos.
E, assim, Alfredo, mesmo um pouco a contragosto, mudou-se de Piratininga.
Depois do curso técnico de contabilidade, Nassib ingressou na faculdade, FAAP, no curso de Economia. Portanto, ficou em SP, durante esse tempo de estudo. Morou numa pensão de estudantes, na Avenida Angélica. Seus estudos iam bem, até que ele resolveu que não era por aí.
Alguns anos mais tarde, reiniciou os estudos, agora Curso de Direito , em Uberaba, MG. Dois anos se passaram e novamente aquela certeza de que não era esse o caminho. Seu dom era outro, atávico. O comércio o chamava e, finalmente, resolveu atender aos seus apelos.
Nassib gostava
de música, mas diferentemente do modo do Labib. Dizia-me à queima-roupa: " não gosto de nada que você toca". Durma-se com essa!
Seu antiestresse era conversar. Gostava de inventar coisas, de narrar fatos exagerando nas cores, era divertido e toda reunião só teria real sucesso se ele estivesse presente. Suas narrações de fatos monopolizavam a atenção de todos, porque eram vivazes, engraçadas e saborosas, cheias de fatos inexplicáveis e insólitos.Por estas qualidades, os filhos e sobrinhos o amavam e se divertiam com ele.
Seu antiestresse era conversar. Gostava de inventar coisas, de narrar fatos exagerando nas cores, era divertido e toda reunião só teria real sucesso se ele estivesse presente. Suas narrações de fatos monopolizavam a atenção de todos, porque eram vivazes, engraçadas e saborosas, cheias de fatos inexplicáveis e insólitos.Por estas qualidades, os filhos e sobrinhos o amavam e se divertiam com ele.
A voz do
Nassib era suave, um tom mais alto que a do irmão. Ambos cantavam, sob o chuveiro.
Mas só.
Labib,
vamos dizer, tinha sempre sobre si a proteção materna. E Nassib, a proteção
paterna. Isso equilibrava as coisas na
família.Tudo a natureza equilibrava: o Nelson era um queridinho do papai: o Wílson, da mamãe. Se eu era a protegida do Labib, a Norma era a irmã favorita do Nassib. Tudo se encaixava. Eu era a predileta da Alice, a Norma, da Renée, da Nilce e de todo o mundo!! Encantadora!!!
Norma e Nassb davam-se tão bem! Quando, depois da sessão de cinema, voltava da Rua Primeiro de Agosto, Nassib trazia sempre um lanche pra Norma, que, caridosamente, repartia comigo.(Bom apetite é característico da família.)
Norma e Nassb davam-se tão bem! Quando, depois da sessão de cinema, voltava da Rua Primeiro de Agosto, Nassib trazia sempre um lanche pra Norma, que, caridosamente, repartia comigo.(Bom apetite é característico da família.)
Se Nassib tivesse negócios a tratar em São Paulo, Norma lhe fazia companhia no bate-volta. Eram irmãos unidos e felizes.
Nassib teve namoradas, uma delas uma querida prima. Mas,
por intrigas de amigos, (e ainda dizem que as mulheres é que são fofoqueiras),
rompeu o namoro.
Seus amigos mais chegados eram o primo Dudo, o primo Waldemar, um bauruense, advogado, João Cruz, além do primo Humberto, mais irmão que primo, pra todos nós. Lógico, Labib sempre o melhor amigo de Nassib..
Sua vida social era entremeada por namoricos, bailes e brincadeiras sem fim com a família. Na hora do café, após as refeições, perguntava-nos se queríamos café batido; Diante da resposta afirmativa, já entremeada de risos, subia na cadeira e, à altura de sua cabeça, erguia o bule e acertava o café na xícara sobre a mesa. Lógico que com a maior empolgação, café pra todo o lado e gargalhadas sem fim.
Mais tarde, como já passara a graça de dar chutes, preferia mexer com os irmãos através de palavras gozadoras e brincadeiras. Ah, não tinha parada, mesmo.
Nassib e Labib eram os filhos mais velhos e sobre eles recaía maior responsabilidade. Eram organizados, desde suas coisas até às roupas. Vai daí que Nelson e Wilson, com vida social fervilhante, volta e meia se valiam das gavetas dos brothrers mais velhos e usavam seus pertences: camisas, calças, cuecas, lenços, novinhos, guardadinhos para alguma ocasião especial.
Houve uma noite em que o Nelson se arrumou todo para um baile. Nassib olhou-o e:
--- Está alinhado, mano!
E olhou-o mais detidamente.
E olhou-o mais detidamente.
--- Epa! Esse terno é meu! Pode tirar.
Nelson, um tanto aborrecido, tirou o paletó.
--- Pode tirar a calça também.
Obedientemente, escondendo um sorriso, que parecia amarelo, mas já era de troça, o gêmeo mais velho tirou as calças.
--- Olha só isto, "sô"! A gravata também!
Nelson tirou a gravata, já sorrindo abertamente o cara de pau.
--- Mas a camisa é minha, interveio Labib, até aquele momento só apreciando a situação.
--- Pode tirar: em uníssono, gritaram Labib e Nassib.
E lá se foi a camisa. A cena era tão cômica, que ninguém se sentiu ofendido. E lá estava o Nelson, só de cueca, com uma cara que nos fazia explodir em risos. Bem aí o Nassib gritou, vitorioso:
--- A cueca é minha!!!
Pronto! Nada mais a dizer. A não ser que as caras do Nelson e os imperativos do Nassib nos arrebentaram de gargalhar e seriam para sempre inesquecíveis.Ah, calma, pessoal! O streap tease parou por aí.
Nassib era apaixonado pelo pai. Davam-se muito bem, entendiam-se também nos negócios. Quando Alfredão resolvia passar algum tempo em viagem com Sálua, Norma e Sônia -- as outras filhas já estavam casadas -- Nassib ia para nossa casa, logo depois do Jantar, com uma missão: fazer o pai desistir da viagem. Assim que chegava, com sua família, não parava de argumentar com o pai sobre a bobagem de se viajar e falava e falava e falava. Até que nosso pai, já completamente enfadado de tantos empecilhos, exclamava em alto e bom som:
--- Está bem! Não vou viajar mais!
Neste ponto, Nassib atingira seu objetivo: o de o pai não se distanciar dele. E assim poderia dar o fora e dormir sossegado.
Mal sabia ele que, logo que acordasse, na manhã seguinte, Alfredo chamaria Sálua e as meninas (sempre) e diria:
--- Vamos pra São Paulo!
Imagino só a cara dele quando descobrisse que fôramos para São Paulo.
Houve uma época em que Alfredo comprou um sítio, em Conceição, perto de Agudos, e onde se descobriu água mineral de alta qualidade. Alfredo a comercializou com o nome de Fonte Azul. Comprou um caminhão e Labib e Nassib, adolescentes, faziam as entregas. Pegaram tanto gosto, que começaram a cabular as aulas. Quando Alfredo teve conhecimento disso, extinguiu o negócio. Os estudos sempre seriam mais importantes que o dinheiro.
Imagino só a cara dele quando descobrisse que fôramos para São Paulo.
Houve uma época em que Alfredo comprou um sítio, em Conceição, perto de Agudos, e onde se descobriu água mineral de alta qualidade. Alfredo a comercializou com o nome de Fonte Azul. Comprou um caminhão e Labib e Nassib, adolescentes, faziam as entregas. Pegaram tanto gosto, que começaram a cabular as aulas. Quando Alfredo teve conhecimento disso, extinguiu o negócio. Os estudos sempre seriam mais importantes que o dinheiro.
Nassib e Labib, com os irmãos Nelson e Wilson, tiveram uma agência de carros. No começo, traziam tratores Massey Ferguson. Depois carros: lindos sedãs da marca Studebaker. Cada um mais lindo que o outro.E, às vezes, vinham com a capota de outra cor! Belíssimos!
Mais tarde, foi a vez da Vemag, com o sucesso do DKW. Eram tempos felizes e prósperos.
Para atender à demanda, construíram um prédio que serviria de escritório de administração e oficina de carros. Os problemas se agigantaram e dissolveu-se a firma e a sociedade.
Algum tempo antes da dissolução da firma, ao passar na Gustavo Maciel, em frente ao Colégio São José -- trajeto automático de quem saísse da Cussi Jr, 11-40 --
Nassib viu, à porta do pensionato das freiras, um grupo de jovens, entre as quais uma garota, cujos olhos derramavam
mel de doçura: Jeannete. Aí se iniciou um amor que duraria até seu último
suspiro.
Jeannete, por coisas do destino, também era patrícia. Morava em Guarantã e cursava Pedagogia em Bauru. O namoro decolou maravilhosamente. Jeannete sempre foi o verso do Nassib. Se ele sempre foi estouvado, Jeannete era a ponderação personificada. Se o Nassib exagerava nos detalhes de narração, Jeannete sempre se ateve à justeza dos fatos.
Mas, quando as coisas não estavam bem nos negócios, Nassib resolveu sumir da vida de sua amada, por não estar em condições de assumir o matrimônio. Ficaram alguns anos separados.
Nessa época, comecei a lecionar em Pirajuí. E, às vezes, a Jeannete e eu nos encontrávamos na rodoviária.
À noite, com o Nassib, cheia de mistério, com os olhos cheios de insinuações, eu:
---Adivinha quem encontrei hoje.
Sua expressão se transformava, toda iluminada. Nem preciso declarar que meu curto diálogo com minha então futura cunhada tinha que ser repetido umas oito vezes. Isso com aplausos dos ouvintes, Labib, Nelson, Wilson e Norma. Uma família assim é o sal da vida. Nestes momentos, eu me tornava a irmã preferida dele. Hahahá! (Também tenho que dar a mão à palmatória: nunca fui esse tipo de pessoa interessante, que sustentasse um diálogo com assuntos vivos. Hahahá! Não, mesmo. Eu era a típica chatinha. O magistério foi me moldando e me fazendo evoluir. Agora sou só um tantinho chata. )
Quando a mãe da Jeannete faleceu, Nassib nem pensou duas vezes. Voou pra Guarantã, a fim de consolar seu grande amor. E o namoro foi retomado.
Ficaram noivos, bem quando eu fazia uma excursão com alunos. Fiquei bem chateada, mas a irmã predileta ali estava. Ainda bem! Nem todos eram invisíveis! (Como veem, nesta época eu era algo como transparente, invisível, portanto sem nenhuma importância. .Mas as coisas mudariam, quando eu me unisse ao Osvaldo!)
O casamento de Nassib e Jeannete foi realizado, na Igreja Santa Teresinha, porque Jeannete já estava morando em Bauru.
O primeiro filho, Nassib Neme Filho, nosso amado Binho, nasceu depois de uns seis anos de casamento. Imaginem só de quanto amor foi recebido. Binho tem muito do pai e a sensatez da mãe.
Mais seis anos se passaram e chega o Neimar, pra encher de júbilo o lar. E, quando todos pensavam que Neimar fosse o caçula, chega do céu um anjinho de olhos de jabuticaba, uma menina, uma perfeição. Seu nome era pra ser Karen, mas, quando Osvaldo ganhou uma filha, quis homenagear o cunhado, colocando o nome que Nassib escolheria, se tivesse uma menina: Karen. Ora, nessa época, todos pensavam que Neimar seria o caçula da família. Mas todos nos enganamos. Um ano e meio depois do nascimento da nossa Karen, nascia a Jane.
Nassib foi comerciante, e daquele tipo de comerciante de quem você quer comprar sempre. Sua loja era de pisos e carpetes.Tinha algo em seu olhar, enquanto expunha as vantagens do produto, que fascinava. Tinha estrela na testa, dizíamos. Sabem aquela história do Jacó? Para ele, com seu trabalho, tudo dava certo? Pois assim era com o Nassib. Talvez fosse o conhecimento profundo do que comercializava. Talvez pela segurança que imprimia ao vender. Talvez fosse a sinceridade com que realmente queria servir aos fregueses. Sim, poderia escrever um manual do bom comerciante. Mais que tudo, havia sempre nele o desejo de ajudar o próximo. Se alguém chegasse com alguma dor, ou com algum problema, esquecia ( ou parecia esquecer) a venda e, à sua mesa, acomodava à sua frente o sofredor, e dava asas à sua imaginação, calcada em leituras e em vivências. O "paciente" saía dali com um programa de solução do problema. E, lógico, efetivando a compra do produto, visto antes da "consulta". Se Labib era um "engenheiro de alma", Nassib era o médico.
Certa feita, receitou pra nossa mãe vinte dias de dieta de limão, a fim de combater o colesterol. Todo o mundo conhece a história: primeiro dia: um limão . Segundo: dois limões. E, assim, até o décimo, quando começaria em ordem inversa até que chegasse a um limão. Pode parecer mentira. Mas deu certo pra nossa mãezinha.
Enfim, só pode me entender quem esteve com Nassib e o viu em seu comércio, em sua casa, ou na Cussi Jr.
Até uma de minhas amigas, com um problema que lhe tirava o sono, quando conheceu Nassib, num segundo já estava no consultório -- a copa de nossa casa -- do médico de alma, segredando suas aflições. Posso falar? Também, passados alguns meses, a consulta surtiu plenamente seus resultados.
Tinha empregados de décadas ao seu lado. E tratava-os com justiça, amizade e autoridade. Um deles era o que tirava minha mãe dos apuros hidráulicos, ou elétricos de sua casa.
Certa feita, receitou pra nossa mãe vinte dias de dieta de limão, a fim de combater o colesterol. Todo o mundo conhece a história: primeiro dia: um limão . Segundo: dois limões. E, assim, até o décimo, quando começaria em ordem inversa até que chegasse a um limão. Pode parecer mentira. Mas deu certo pra nossa mãezinha.
Enfim, só pode me entender quem esteve com Nassib e o viu em seu comércio, em sua casa, ou na Cussi Jr.
Até uma de minhas amigas, com um problema que lhe tirava o sono, quando conheceu Nassib, num segundo já estava no consultório -- a copa de nossa casa -- do médico de alma, segredando suas aflições. Posso falar? Também, passados alguns meses, a consulta surtiu plenamente seus resultados.
Tinha empregados de décadas ao seu lado. E tratava-os com justiça, amizade e autoridade. Um deles era o que tirava minha mãe dos apuros hidráulicos, ou elétricos de sua casa.
Às vezes, em rodas familiares, Nassib se empolgava com seus relatos e exorbitava nas tintas e nos próprios fatos. Diante de nossos olhares estupefatos, pedia a sua esposa a confirmação do relato:
--- Não é, Jana?
E ela, com muita meiguice:
--- Não foi beeem assim, Náááá!
Ao ouvirmos isso, desatávamos a rir.
É! Nenhuma reunião tinha graça sem ele. É que o Nassib apimentava as conversas.
Como pai, não se eximia de nada.Sempre foi um pai carinhoso, prestativo, ativo.
O problema que enfrentou com a perna , deixando-o claudicante, não esmoreceu nunca suas atividades.Continuou a trabalhar do mesmo modo. Nunca quis saber de cirurgias, porque tinha muito medo de morrer durante a intervenção e deixar os filhos e esposa. Ficamos proibidos por ele de falar em cirurgia. E lhe obedecemos.
Quando Osvaldo se casou comigo, fui alçada a um patamar superior. Deixei de ser a invisível e sem importância. Nassib gostava e admirava tanto o Osvaldo que aprendeu a me tolerar, com a minha sem gracice. Passamos a conversar muito e ainda acabei por ganhar seu amor.
Quando nossos pais nos deixaram, Nassib, que nem era tão mais velho que eu, apenas nove anos, me abrigou sob suas asas, repetindo o papel que nossos pais faziam. Ao deixarmos Osvaldo e eu Bauru para voltarmos a São Paulo:telefonava ao cabo de quatro horas, para se certificar que chegáramos bem
E, se houvesse tempestades, inundações em SP, telefonava preocupado em saber se nós três estávamos seguros.
Quando nossos pais nos deixaram, Nassib, que nem era tão mais velho que eu, apenas nove anos, me abrigou sob suas asas, repetindo o papel que nossos pais faziam. Ao deixarmos Osvaldo e eu Bauru para voltarmos a São Paulo:telefonava ao cabo de quatro horas, para se certificar que chegáramos bem
E, se houvesse tempestades, inundações em SP, telefonava preocupado em saber se nós três estávamos seguros.
Quando Osvaldo ficou doente, eram duas três ligações por dia. A Tita pegou medo dele, rsrsrs, porque Nassib não aceitava as respostas que ela lhe dava. Ah, aquela energia!! Se ela dissesse, querendo salvaguardar nossa intimidade: " tudo está bem", ele irrompia nervoso:" como tudo está bem se eles foram ao médico?" Vai daí é que ela tremia ao receber telefonema dele. Até hoje ela guarda esse choque. Hahahá! É o Nassib, pleno!
Nassib, mesmo com dores fortes na perna, não delegava nada a ninguém: e o telefone passou a ser suas pernas. Resolvia tudo, sabia tudo, comprava, vendia, consertava, cuidava, tudo pelo telefone. Acho que herdei um pouco dessa convicção de que por telefone tudo se resolve. Ou quase tudo.
Nem narrei como Nassib foi irmão mais que exemplar para o Wílson, durante sua enfermidade. De tudo que a Jeannete cozinhava para sua família, já estava reservado o prato do Wilson, que o Nassib, com a perna dolorida, levava à casa do irmão, fazendo-lhe não só companhia como , principalmente, fazendo-o esquecer-se um pouco da dura realidade. Nunca pensava em se poupar. Na companhia dos irmãos e do primo Humberto, que era amigo e tão irmão quanto os outros três, levaram o Wilson para médicos de Bauru, de cidades vizinhas e, mesmo de Ribeirão Preto.
A mesma dedicação, durante a doença do pai: Nassib, com aquela perna dolorosa, não tinha preguiça, nem moleza: ia duas, três vezes por dia ver o pai, conversar com ele ( mesmo que Alfredo não conseguisse falar) , e assistir a mãe no que a casa ou o pai precisassem. Passava seus momentos livres jogando xadrez com Alfredo, esporte que se estendeu ao Binho, que também assim entretinha o avô. E foi assim que a indesejada das gentes levou Alfredo. Rodeado dos filhos e noras e netos, ao lado, Sálua. À frente, o tabuleiro de xadrez. Nassib quase nem percebeu. Alfredo recostou a cabeça na poltrona, fechou os olhos e, nessa paz, rodeado de amor, partiu.
Nassib ficou desesperado. Depois da missa de sétimo dia, não conseguia voltar à casa dos pais.
O tempo foi passando. Numa visita a minha mãe, ela me confidenciou: "o Nassib gostava só de seu pai. Faz quinze dias que não vem aqui". Ouvi e, sorrateiramente, telefonei ao meu irmão e repeti o que ouvira. À noite ele, superando-se, estava em casa e tudo voltou ao amor de sempre.
Nem narrei como Nassib foi irmão mais que exemplar para o Wílson, durante sua enfermidade. De tudo que a Jeannete cozinhava para sua família, já estava reservado o prato do Wilson, que o Nassib, com a perna dolorida, levava à casa do irmão, fazendo-lhe não só companhia como , principalmente, fazendo-o esquecer-se um pouco da dura realidade. Nunca pensava em se poupar. Na companhia dos irmãos e do primo Humberto, que era amigo e tão irmão quanto os outros três, levaram o Wilson para médicos de Bauru, de cidades vizinhas e, mesmo de Ribeirão Preto.
A mesma dedicação, durante a doença do pai: Nassib, com aquela perna dolorosa, não tinha preguiça, nem moleza: ia duas, três vezes por dia ver o pai, conversar com ele ( mesmo que Alfredo não conseguisse falar) , e assistir a mãe no que a casa ou o pai precisassem. Passava seus momentos livres jogando xadrez com Alfredo, esporte que se estendeu ao Binho, que também assim entretinha o avô. E foi assim que a indesejada das gentes levou Alfredo. Rodeado dos filhos e noras e netos, ao lado, Sálua. À frente, o tabuleiro de xadrez. Nassib quase nem percebeu. Alfredo recostou a cabeça na poltrona, fechou os olhos e, nessa paz, rodeado de amor, partiu.
Nassib ficou desesperado. Depois da missa de sétimo dia, não conseguia voltar à casa dos pais.
O tempo foi passando. Numa visita a minha mãe, ela me confidenciou: "o Nassib gostava só de seu pai. Faz quinze dias que não vem aqui". Ouvi e, sorrateiramente, telefonei ao meu irmão e repeti o que ouvira. À noite ele, superando-se, estava em casa e tudo voltou ao amor de sempre.
NOTÍCIAS:
Binho é um orgulho. É engenheiro civil e é aquele em cujas mãos Karen e eu podemos depositar nossas vidas.
Neimar, um querido, é advogado.
Jane, nossa caçulinha, é tudo de bom: administradora, viajante, estudiosa e, lógico, sempre a primeira em tudo. mora em Paris, sua paixão.
Ainda não falei do Nassib tio. Para minha filha, o tio perfeito, cujas tiradas inesperadas e fora dos padrões costumeiros a conquistaram pra sempre.
Nassib nos deixou no dia 15 do mês de agosto, de 1998. Foi uma viagem repentina, numa falha fulminante do coração. Naquele dia, tínhamos Osvaldo, Karen e eu comprado os sofás da sala, para o novo apartamento, em que iríamos morar. E eu sonhava, desde que os escolhera, que para o Nassib seriam ótimos e muito confortáveis. Antevia os dois amigos nas poltronas, e conversando. Pena que foi sonho irrealizado. Essa ausência doeu muito e dói sempre.
Mas há dois grandes consolos. As lembranças deliciosas que nos legou e a família amorosa que carrega seu brilho e seu caráter, meu irmão.

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