19- Os Gêmeos
(Nelson e Wilson)
(Em 1932, não havia os maravilhosos aparelhos do mundo moderno, que trouxessem aos futuros pais a certeza sobre o sexo do bebê. Claro que acredito nO Pequeno Príncipe. "Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz" Mas havia, nos idos tempos, o encanto da surpresa, com explosão de alegria!)
Nelson e Wilson eram gêmeos dizigóticos, ou não idênticos. Dois óvulos foram fecundados simultaneamente por dois espermatozoides e resultaram nestas duas pessoas de físico diferente, gostos e gênios nem tão diferentes. Semelhanças e diferenças.
(Em 1932, não havia os maravilhosos aparelhos do mundo moderno, que trouxessem aos futuros pais a certeza sobre o sexo do bebê. Claro que acredito nO Pequeno Príncipe. "Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz" Mas havia, nos idos tempos, o encanto da surpresa, com explosão de alegria!)
Nelson e Wilson eram gêmeos dizigóticos, ou não idênticos. Dois óvulos foram fecundados simultaneamente por dois espermatozoides e resultaram nestas duas pessoas de físico diferente, gostos e gênios nem tão diferentes. Semelhanças e diferenças.
Wilson, ao nascer,era mais desenvolvido e forte que
Nelson. Quando chegava alguma visita, os pais mostravam Wilson, porque assim
deixavam Nelson recuperar-se melhor. E foi o que aconteceu. Logo Nelson
desenvolveu-se e tornou-se um garoto forte e risonho.
Na hora do parto, houve uma confusão. A profissional, que assistia minha mãe, a boa e fiel parteira, ficou esfuziante ao arrebanhar o Nelson. Mal as exclamações de júbilo se repetiam, quando a parteira, voltando a cuidar da paciente, viu que:
-- Ó céus! Tem mais um bebê chegando!
Loucura, loucura! Nem se cogitava na época , que, um dia, pudesse existir um aparelho de laboratório, que pusesse fim a esse doce suspense.
E aí, Wílson chegou. Alegrias! Risos! Gritos de graças a Deus! Caos nos corredores compridos da casa. Caos no quarto de Sálua e Alfredo, Caos no casarão de Piratininga. Luzes acesas, iluminando a festa, vista das ruas. Estouros de champagne, chocolates em profusão, charutos cubanos, uma comemoração que parecia não ter fim. Se o barulho da família não bastasse, com o deslumbramento dos irmãos mais velhos, Alice, Renée, Labib, Nassib, Nilce, os gêmeos atiçavam a bagunça com gritos e choros de fome sem fim.
Sálua, já muito temerosa, com o olhar, pediu socorro a Alfredo. Era muita fome pra só dois peitos de leite! Alfredo, numa rápida e instantânea compreensão, acalmou sua esposa:
-- Não se preocupe. Amanhã trarei leite da melhor vaca da Fazenda Matão. (É! Naquele tempo, nada de leite Ninho!!)
Por uma lua muito cheia, em Piratininga, no mesmo dia, 8 de dezembro de 1932, nasceram outros gêmeos. Alfredo logo que soube, na mesma noite, mandou recado à outra mãe de gêmeos:
-- Avisem a companheira de Sálua que amanhã trarei leite para os filhos dela, também. Porque não há mulher que consiga amamentar gêmeos meninos, que têm mais fome.
E, assim, no dia seguinte, e, por meses a fio, Alfredo, antes de chegar a sua casa, passava pela dos outros bebês gêmeos e deixava um latão de leite. Continuou a fazer isso até quando foi necessário.( Parece tão simples, hem? Um gesto de solidariedade. Muitas décadas depois, Alfredo, já septuagenário, saía da Fazenda, à tarde, quando viu, logo perto da Água Branca, uma barraca de vendedores de abacaxis. Parou, escolheu uns oito a dez abacaxis e perguntou aos vendedores quanto lhes devia. Os moços lhe responderam enigmaticamente:
-- Nada. Aqui o senhor é sócio.
Alfredo ficou boquiaberto, sem entender tanta gentileza. Afinal ele estava levando de oito a dez abacaxis. Não tinha razão de ser aquela atitude dos vendedores.
-- Como assim? Quero saber quanto lhes devo por essas frutas.
-- Sr Neme, aqui o senhor não paga. Somos os gêmeos a quem, em nossos primeiros meses de vida, o senhor levou diariamente um latão de leite.
Grandes abraços selaram o reencontro, com notícias recíprocas.
Pois é! A vida tem surpresas lindas!! )
Depois de contornado o problema do leite, a casa nunca mais foi a mesma. Quando um bebê chorava, o outro também se punha a gritar. Era um atropelo de gente, de mãos, querendo ajudar Sálua.
Os gêmeos eram vigiados por todos. Mas Nilce, pela idade próxima, já começou a tornar-se a figura companheira e protetora dos gêmeos.
.
Cresceram aprontando todo o tipo de peraltice. Sabiam brincar como ninguém.
Eram dois meninos levados da breca. Nelson era tão risonho e elétrico, que logo que começou a assistir a filmes e seriados de bangue-bangue, se sentiu o próprio herói. Descobriu onde Alfredo guardava o revólver, pegou-o, empunhou-o e, correndo, pôs-se à frente de Sálua, sua mãe. Apontou o cano da arma para ela e :
-- Mãos ao alto!!
Sálua não acreditava que isto estivesse ocorrendo com ela. Seu coração dava pulos de susto. Procurava enganar o garoto, mas com ele não havia conversa, não! E tome “mãos ao alto” de novo. Autoritário, petulante, como convinha ser um mocinho. Inteligentemente, Sálua foi distraindo-o, sempre de mãos ao alto, chamando em árabe por Êssar, e avisando-o – em árabe -- da situação difícil em que estava. Lógico: com as mãos bem erguidas. Alfredo, pé ante pé, ficou atrás do garoto cow-boy e conseguiu rapidamente tirar-lhe a arma. Depois do susto, Nelson recebeu umas agulhadinhas nas pequenas mãos, para não mexer mais no que era proibido. Nunca mais Alfredo deixaria o revólver em uma gaveta. Sempre iria guardá-lo embrulhado num pano e num jornal e o deixaria em cima do guarda-roupa. Bem longe de mãos espertas e abelhudas.
Na hora do parto, houve uma confusão. A profissional, que assistia minha mãe, a boa e fiel parteira, ficou esfuziante ao arrebanhar o Nelson. Mal as exclamações de júbilo se repetiam, quando a parteira, voltando a cuidar da paciente, viu que:
-- Ó céus! Tem mais um bebê chegando!
Loucura, loucura! Nem se cogitava na época , que, um dia, pudesse existir um aparelho de laboratório, que pusesse fim a esse doce suspense.
E aí, Wílson chegou. Alegrias! Risos! Gritos de graças a Deus! Caos nos corredores compridos da casa. Caos no quarto de Sálua e Alfredo, Caos no casarão de Piratininga. Luzes acesas, iluminando a festa, vista das ruas. Estouros de champagne, chocolates em profusão, charutos cubanos, uma comemoração que parecia não ter fim. Se o barulho da família não bastasse, com o deslumbramento dos irmãos mais velhos, Alice, Renée, Labib, Nassib, Nilce, os gêmeos atiçavam a bagunça com gritos e choros de fome sem fim.
Sálua, já muito temerosa, com o olhar, pediu socorro a Alfredo. Era muita fome pra só dois peitos de leite! Alfredo, numa rápida e instantânea compreensão, acalmou sua esposa:
-- Não se preocupe. Amanhã trarei leite da melhor vaca da Fazenda Matão. (É! Naquele tempo, nada de leite Ninho!!)
Por uma lua muito cheia, em Piratininga, no mesmo dia, 8 de dezembro de 1932, nasceram outros gêmeos. Alfredo logo que soube, na mesma noite, mandou recado à outra mãe de gêmeos:
-- Avisem a companheira de Sálua que amanhã trarei leite para os filhos dela, também. Porque não há mulher que consiga amamentar gêmeos meninos, que têm mais fome.
E, assim, no dia seguinte, e, por meses a fio, Alfredo, antes de chegar a sua casa, passava pela dos outros bebês gêmeos e deixava um latão de leite. Continuou a fazer isso até quando foi necessário.( Parece tão simples, hem? Um gesto de solidariedade. Muitas décadas depois, Alfredo, já septuagenário, saía da Fazenda, à tarde, quando viu, logo perto da Água Branca, uma barraca de vendedores de abacaxis. Parou, escolheu uns oito a dez abacaxis e perguntou aos vendedores quanto lhes devia. Os moços lhe responderam enigmaticamente:
-- Nada. Aqui o senhor é sócio.
Alfredo ficou boquiaberto, sem entender tanta gentileza. Afinal ele estava levando de oito a dez abacaxis. Não tinha razão de ser aquela atitude dos vendedores.
-- Como assim? Quero saber quanto lhes devo por essas frutas.
-- Sr Neme, aqui o senhor não paga. Somos os gêmeos a quem, em nossos primeiros meses de vida, o senhor levou diariamente um latão de leite.
Grandes abraços selaram o reencontro, com notícias recíprocas.
Pois é! A vida tem surpresas lindas!! )
Depois de contornado o problema do leite, a casa nunca mais foi a mesma. Quando um bebê chorava, o outro também se punha a gritar. Era um atropelo de gente, de mãos, querendo ajudar Sálua.
Os gêmeos eram vigiados por todos. Mas Nilce, pela idade próxima, já começou a tornar-se a figura companheira e protetora dos gêmeos.
.
Cresceram aprontando todo o tipo de peraltice. Sabiam brincar como ninguém.
Eram dois meninos levados da breca. Nelson era tão risonho e elétrico, que logo que começou a assistir a filmes e seriados de bangue-bangue, se sentiu o próprio herói. Descobriu onde Alfredo guardava o revólver, pegou-o, empunhou-o e, correndo, pôs-se à frente de Sálua, sua mãe. Apontou o cano da arma para ela e :
-- Mãos ao alto!!
Sálua não acreditava que isto estivesse ocorrendo com ela. Seu coração dava pulos de susto. Procurava enganar o garoto, mas com ele não havia conversa, não! E tome “mãos ao alto” de novo. Autoritário, petulante, como convinha ser um mocinho. Inteligentemente, Sálua foi distraindo-o, sempre de mãos ao alto, chamando em árabe por Êssar, e avisando-o – em árabe -- da situação difícil em que estava. Lógico: com as mãos bem erguidas. Alfredo, pé ante pé, ficou atrás do garoto cow-boy e conseguiu rapidamente tirar-lhe a arma. Depois do susto, Nelson recebeu umas agulhadinhas nas pequenas mãos, para não mexer mais no que era proibido. Nunca mais Alfredo deixaria o revólver em uma gaveta. Sempre iria guardá-lo embrulhado num pano e num jornal e o deixaria em cima do guarda-roupa. Bem longe de mãos espertas e abelhudas.
Os gêmeos deixaram
marcas por onde passaram. Aprontavam sempre, entre si, ou com os amigos.
Aquelas mãozinhas não ficavam paradas em nenhum momento. E o fato de Sálua
precisar sempre de Êssar, para ajudá-la com os gêmeos, originou uma
brincadeira, não muito psicológica, nem pedagógica. Êssar cuidava sempre do
Nelson e Sálua, do Wilson.
-- Sálua, cuide de seu filho.
-- Êssar, seu filho está chorando.
-- Sálua, cuide de seu filho.
-- Êssar, seu filho está chorando.
Quando eram pequenos,
os dois artistas eram muito criativos. Aprenderam logo a fazer seus
estilingues, suas pipas, que chamavam papagaios. Um belo dia, sentiram
que precisavam fazer uns estilingues melhores. Pensaram no que poderiam
precisar: foram ao quintal, procurar os materiais aproveitáveis para a operação estilingue: não
tiveram dúvidas. Ali na garagem tinham todo material necessário. Mãos à obra.
Quando Alfredo chegou
da fazenda, guardou o carro na garagem e começava a descarregar as frutas e os latões de leite que de lá trouxera, como todos os dias, quando...
TãTãTãTã!!!!!! Seus olhos depararam com uma cena pra lá
de insólita e incrível: a câmara de ar do pneu estava toda recortada.. Hã! Já
se sabe para qual fim! Êssar xingou em árabe: “Ehredíneque”, que eu sempre traduzi, como Desgraçados! que, na época, era o pior palavrão em árabe e em português que eu conhecia. Aquilo era além da conta. Alfredo ficou uma
fúria. E logo concluiu que os autores da façanha eram os gêmeos.
-- Sálua, esconde os meninos de mim, porque se eu os pegar ...
Ameaça de perigo no ar.
Foi graças à presteza de sua mãe que os gêmeos deixaram de levar uma bela surra. Sálua os escondeu muito bem, com um aviso de não saiam daí e só saiam quando eu os chamar.
-- Sálua, esconde os meninos de mim, porque se eu os pegar ...
Ameaça de perigo no ar.
Foi graças à presteza de sua mãe que os gêmeos deixaram de levar uma bela surra. Sálua os escondeu muito bem, com um aviso de não saiam daí e só saiam quando eu os chamar.
Eram traquinas e brincalhões. Davam a vida por uma
brincadeira. Eram bons em tudo
Nelson e Wilson, tinham inúmeras amizades, nascidas na vizinhança, ou na escola, E havia, na vizinhança, garotinhas de sua idade, muito lindas. Vai daí que os dois sacaninhas, na pré-adolescência, resolveram espiar uma linda garotinha da Gustavo Maciel. Era uma atividade que eles chamavam buraquear. Entravam sorrateiramente no quintal da casa da mini miss, e, pelo buraco da porta de madeira, espiavam à vontade. Estavam eles nesse doce mister, quando mão poderosa agarrou a cabeça do Nelson e outra mão nervosa pegou com força descomunal a cabeça do Wilson, fazendo-as se chocarem violentamente uma contra a outra. Nesse instante, os dois "santinhos", ( no dizer da avó ), viram estrelas.
Com mais uns sopapos, foram mandados pra casa, pelo pai da garota. O que eles viram buraqueando só com eles ficou. A violência das grossas e fortes mãos deixou nos pescoços juvenis uns vergões e outros arranhões..
Quando Alfredo chegou da fazenda, chamou os gêmeos para o ajudarem a tirar as botas. Depois de lhe beijar a mão, Nelson agarrou uma bota, colocou-a no meio das pernas e de costas para o pai, foi puxando a bota, enquanto, com o outro pé, Alfredo o empurrava, pela nádega, e, desse modo sui generis, a bota era tirada do pé.
-- Nelson, que é esse arranhado no seu pescoço? Deixe ver, você também, Wilson...
-- Nada, pai.
-- Podem contar já, que sei que vocês andaram aprontando.
Nelson e Wilson não tiveram outro jeito a não ser narrar.
Alfredo ouviu, sem comentários, levantou-se, aprontou-se, enfiou as botas que acabara de descalçar, botou o revólver na cinta e ...
-- Venham comigo.
Em frente à casa do pai da linda garota , tocaram a campainha.
-- Quero que o senhor saiba que não aprovo o que os meninos fizeram, mas estou bem contrariado com o que o senhor fez com eles. Ninguém bate em meus filhos, a não ser eu.
E o revólver na cintura falou o resto.
Resultado: o valente pai pediu desculpas aos garotos.
Hahahá! Seu Alfredo, que só atirava em codornas, mas que carregava todos os dias seu revólver 38!
Os gêmeos eram a delícia da Sêti (vovó em árabe). Fada. Era maluca por eles. Defendia-os com paixão, dando desculpas para quaisquer artes que fizessem. Sempre falando em árabe, e só em árabe, tinha sempre argumentos que inocentassem os dois anjinhos de qualquer travessura. À mesa, durante as refeições, sentava-se entre eles. Havia um elo entre os três: quem pegasse logo a mistura, passava-a para o outro. O Ito sempre lhe servia um pedaço bom de frango, antes de servir-se a si próprio. Sabe, o Ito não fazia cerimônia: escolhia sempre antes de todos e do pedaço de frango de que mais gostava. Mas sabia proteger o prato pronto da avó. A Sêti sempre comia calada, sem pedir nada. Ela nem se preocupava com as misturas: os gêmeos cuidavam do prato da seti antes de se servirem a si mesmos.
Nelson e Wilson, tinham inúmeras amizades, nascidas na vizinhança, ou na escola, E havia, na vizinhança, garotinhas de sua idade, muito lindas. Vai daí que os dois sacaninhas, na pré-adolescência, resolveram espiar uma linda garotinha da Gustavo Maciel. Era uma atividade que eles chamavam buraquear. Entravam sorrateiramente no quintal da casa da mini miss, e, pelo buraco da porta de madeira, espiavam à vontade. Estavam eles nesse doce mister, quando mão poderosa agarrou a cabeça do Nelson e outra mão nervosa pegou com força descomunal a cabeça do Wilson, fazendo-as se chocarem violentamente uma contra a outra. Nesse instante, os dois "santinhos", ( no dizer da avó ), viram estrelas.
Com mais uns sopapos, foram mandados pra casa, pelo pai da garota. O que eles viram buraqueando só com eles ficou. A violência das grossas e fortes mãos deixou nos pescoços juvenis uns vergões e outros arranhões..
Quando Alfredo chegou da fazenda, chamou os gêmeos para o ajudarem a tirar as botas. Depois de lhe beijar a mão, Nelson agarrou uma bota, colocou-a no meio das pernas e de costas para o pai, foi puxando a bota, enquanto, com o outro pé, Alfredo o empurrava, pela nádega, e, desse modo sui generis, a bota era tirada do pé.
-- Nelson, que é esse arranhado no seu pescoço? Deixe ver, você também, Wilson...
-- Nada, pai.
-- Podem contar já, que sei que vocês andaram aprontando.
Nelson e Wilson não tiveram outro jeito a não ser narrar.
Alfredo ouviu, sem comentários, levantou-se, aprontou-se, enfiou as botas que acabara de descalçar, botou o revólver na cinta e ...
-- Venham comigo.
Em frente à casa do pai da linda garota , tocaram a campainha.
-- Quero que o senhor saiba que não aprovo o que os meninos fizeram, mas estou bem contrariado com o que o senhor fez com eles. Ninguém bate em meus filhos, a não ser eu.
E o revólver na cintura falou o resto.
Resultado: o valente pai pediu desculpas aos garotos.
Hahahá! Seu Alfredo, que só atirava em codornas, mas que carregava todos os dias seu revólver 38!
Os gêmeos eram a delícia da Sêti (vovó em árabe). Fada. Era maluca por eles. Defendia-os com paixão, dando desculpas para quaisquer artes que fizessem. Sempre falando em árabe, e só em árabe, tinha sempre argumentos que inocentassem os dois anjinhos de qualquer travessura. À mesa, durante as refeições, sentava-se entre eles. Havia um elo entre os três: quem pegasse logo a mistura, passava-a para o outro. O Ito sempre lhe servia um pedaço bom de frango, antes de servir-se a si próprio. Sabe, o Ito não fazia cerimônia: escolhia sempre antes de todos e do pedaço de frango de que mais gostava. Mas sabia proteger o prato pronto da avó. A Sêti sempre comia calada, sem pedir nada. Ela nem se preocupava com as misturas: os gêmeos cuidavam do prato da seti antes de se servirem a si mesmos.
E assim chegaram à
adolescência. Eram jovens, pertenciam à melhor sociedade bauruense, contavam
com muitos e sinceros amigos, estudavam no Colégio Guedes de Azevedo, um centro
não só educativo, como social.
Houve uma vez em que a
Sêti desapareceu de casa. Foi um tal de procurar, nos quartos (eram seis), nas
salas (eram três), na cozinha, na cozinha caipira, na copa, no quintal, no
quarto de empregada. E nada da Sêti. Estavam meus pais tremendo, sem saber a que
atribuir o desaparecimento da matriarca, quando começaram a ouvir vozes e
risos, da rua, aproximando-se de casa. Era pura felicidade que chegava. Nelson
e Wílson ladeavam a Sêti, abraçando-a, às gargalhadas com ela. Pois ela fora ao
Tênis vê-los praticar natação e tênis. Sozinha, sem dar satisfação a ninguém,
dirigira-se ao Tênis Clube, que ficava a meia quadra de casa, entrara no clube e, sem
falar uma palavra em português, conseguira saber onde os gêmeos estavam. (Decerto
Bauru inteira da época conhecia a figura). Subira a escada que dava para um belvedere,
de onde se observavam os tenistas e os nadadores e de lá de cima encontrou suas
joias raras. A alegria dos jovens foi imensa. Mandavam-lhe beijos, entre uma
raquetada e outra, ou entre uma braçada e outra. Fada os olhava com amor
infinito. Estes eram seus garotos. Seu peito se encheu de orgulho, vendo seus
corpos perfeitos e fortes, seus movimentos ágeis e certeiros. Seus netos
gêmeos: uns primores de atletas.
Os gêmeos eram figuras
carimbadas da sociedade bauruense. Além das possantes vozes, que exercitavam
debaixo do chuveiro, eram atletas natos. Participavam dos campeonatos de
natação, de tênis, de xadrez. Eram bons mesmo. Nelson brilhou na natação, conquistou
muitas medalhas e taças, expostas numa cristaleira ( junto com as de papai nos
campeonatos de bridge). Nelson foi campeão paulista de nado livre. Quando ele
nadava, havia um coro de fãs que exclamava:
-- É um peixe!!! É o Aranha!
Wilson já se destacava mais no nado clássico e borboleta. Também ganhou vários campeonatos, lembrados em medalhas e taças. No xadrez, Wilson conquistou muitas vitórias em campeonatos. Seu nome brilhava entre os melhores enxadristas. Nelson também teve sucesso no xadrez.
Eram jovens, amados, simpáticos, felizes. Pertenciam à nata da sociedade e não faltavam a nenhum baile, fosse do Tênis Clube, fosse do Automóvel Clube, ou do Grêmio. Sem contar as folias no carnaval, os banhos à fantasia das tardes de domingo de carnaval, na piscina, e ainda sem mencionar os bailes no clube Panela de Pressão,que, como o nome indica, era propício a essas danças atracadas. Lá a gafieira corria solta. E Wilson esbanjava talento naquela dança maliciosa e atrevida.
Imaginem quantas brigas ele e o Nelson não arrumaram, na infância e na juventude. E em casa mesmo, por causa dos temperamentos fortes dos dois, houve muitas discussões com meu pai, com meus irmãos mais velhos. Houve dias em que eles falavam para mim e para Norma: ( As outras irmãs já estavam casadas.)
-- É um peixe!!! É o Aranha!
Wilson já se destacava mais no nado clássico e borboleta. Também ganhou vários campeonatos, lembrados em medalhas e taças. No xadrez, Wilson conquistou muitas vitórias em campeonatos. Seu nome brilhava entre os melhores enxadristas. Nelson também teve sucesso no xadrez.
Eram jovens, amados, simpáticos, felizes. Pertenciam à nata da sociedade e não faltavam a nenhum baile, fosse do Tênis Clube, fosse do Automóvel Clube, ou do Grêmio. Sem contar as folias no carnaval, os banhos à fantasia das tardes de domingo de carnaval, na piscina, e ainda sem mencionar os bailes no clube Panela de Pressão,que, como o nome indica, era propício a essas danças atracadas. Lá a gafieira corria solta. E Wilson esbanjava talento naquela dança maliciosa e atrevida.
Imaginem quantas brigas ele e o Nelson não arrumaram, na infância e na juventude. E em casa mesmo, por causa dos temperamentos fortes dos dois, houve muitas discussões com meu pai, com meus irmãos mais velhos. Houve dias em que eles falavam para mim e para Norma: ( As outras irmãs já estavam casadas.)
- Nós
vamos embora de casa. Não dá mais!
É
lógico que Norma e eu caíamos na choradeira. Aonde iriam eles? Onde dormiriam?
Teriam dinheiro pra se sustentar? E ficávamos insones, remoendo as palavras
ditas na hora das discussões, chorando e rezando por eles, até que o sono nos
apaziguasse. Não se passavam muitas horas, mas já de madrugada, e ... Pã !pã! pã! , ( batidas na janela )
-- Norma,
Sônia, abram a porta.
Corríamos
loucas de alegria e de alívio, para abrir a porta dos fundos, destravando
aquela barra de ferro, e voltando a chave. Em silêncio e rindo à socapa,
entravam e cada um de nós ia para seu quarto. Depois da morte da Sêti, o Ito
ficara com o quarto da avó, e o Nelson dormia no quarto em frente.
Na adolescência e na juventude, tinham vida social intensa. Como os irmãos mais velhos já não iam
tanto a bailes e a aperitivos dançantes, os gêmeos, iam sorrateiramente
ao quarto de Labib e Nassib, e, abrindo as gavetas, se serviam
generosamente de roupas novinhas dos irmãos mais velhos guardadas para ocasiões especiais. E lá
iam eles, elegantes, com camisas ou ternos novos para o clube. Só que,
quando Labib e Nassib descobrissem o empréstimo compulsório, seria o
caos!
Os gêmeos formaram-se no Curso Técnico de Contabilidade no Guedes de Azevedo. Foi uma cerimônia de entrega de certificados muito bonita e emocionante. O diretor da escola chamou Sálua para que ela entregasse os diplomas aos gêmeos formandos.. Foi uma atitude muito gentil e comovente da diretoria. A foto gravou o momento de felicidade de Sálua e as atitudes de respeito de toda banca de professores, aplaudindo-os em pé. E ficarão na memória as figuras lindas dos gêmeos, em ternos brancos, com rosto iluminado de amor pela mãe e pela alegria da conquista.
Em resumo, os gêmeos eram o movimento, a alegria, a animação, a energia da Cussi Júnior, 11-40.
Os gêmeos formaram-se no Curso Técnico de Contabilidade no Guedes de Azevedo. Foi uma cerimônia de entrega de certificados muito bonita e emocionante. O diretor da escola chamou Sálua para que ela entregasse os diplomas aos gêmeos formandos.. Foi uma atitude muito gentil e comovente da diretoria. A foto gravou o momento de felicidade de Sálua e as atitudes de respeito de toda banca de professores, aplaudindo-os em pé. E ficarão na memória as figuras lindas dos gêmeos, em ternos brancos, com rosto iluminado de amor pela mãe e pela alegria da conquista.
Em resumo, os gêmeos eram o movimento, a alegria, a animação, a energia da Cussi Júnior, 11-40.



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