terça-feira, 1 de março de 2016

26 - Mudança para Bauru



26 - MUDANÇA PARA BAURU




                                            1938    
As fotos dos carnavais marcam nosso adeus a Piratininga.

                                      1940

     Em virtude das peraltices do Nassib, que descia do trem em movimento ( meus irmãos mais velhos estudavam em Bauru), e das reclamações do chefe da estação sobre o comportamento deste meu adorado irmão, mamãe conseguira convencer meu pai de que era necessário mudarmos  para Bauru. Não era o que meu pai desejava: sentia-se muito feliz em Piratininga, cercado de amigos, perto da fazenda, para onde ia diariamente. Mas sabia que Sálua estava com a razão. Mesmo contrariado, comprou uma bela e grande casa, na rua Cussi Júnior, próxima ao clube da cidade. Próxima? Vizinha, mesmo. Meia quadra separava o lar dos Nemes do que seria,  depois de uma reforma, o maravilhoso e fantástico Bauru Tênis Clube, Transatlântico de Concreto. 
     A casa tinha um portãozinho alto, enfeitado com uma primavera de flores cor de vinho. Uma grande e comprida, mas estreita varanda, muitos e muitos quartos ( afinal eram nove filhos e mais minha avó, Fada) Um quintal enorme, com galinheiro ( não vale rir), dependências para empregada, garagem, um grande abacateiro, árvores, uma videira, jardim na frente da casa, com plantas de que minha mãe cuidava com todo o amor.Um primor de moradia! 

Meus pais, na varanda, como a receberam nos anos 40, antes de, nos anos 50, reformá-la)

     Lembro-me da primeira noite nesta casa, que foi meu lar por tantos e tantos anos e onde a felicidade chegou a morar por muito tempo. Todos estavam acomodados, tudo em ordem: o quarto de meus pais, o quarto de minha avó, o do Nelson e Wilson, o do Labib e Nassib, o da Alice, no qual eu dormia frequentemente, o da Nilce e Renée,  no qual a Norma se impunha. É! Nós duas sempre queríamos dormir com a Renée e com a Nilce, que era muito divertido. Sempre a Norma ganhava estas disputas, aliás como todas as outras. E assim eu dormia no quarto da Alice, mimosa, muito carinhosa comigo. Posso dizer que naquela época eu era a preferida dessa minha irmã, cheia de personalidade. Ela sempre soube impor seu pensamento, suas vontades. E inventara um apelido pra mim: Suna. Até hoje me pego lembrando-me de sua voz me chamando docemente:
     --Suna!

     Do dia da mudança não me lembro como foi, Afinal. deveria ter uns quatro anos , se tanto. Mas à noite, na nova casa, recordo-me que tudo estava em perfeita ordem. Incrível como minha mãe conseguiu esta proeza.

     Meu pai, na sala de jantar, preocupado e nervoso por causa da mudança, ouvia, curvado sobre o aparelho de rádio, as notícias da Hora do Brasil. A um olhar zangado sobre nós, que conversávamos e ríamos na copa, mamãe fechou a porta, para que ele pudesse ouvir melhor o noticiário. O som do rádio vinha com ruídos de ondas e nem sempre era possível ouvir com clareza o que o repórter dizia.      
     Depois havia o Repórter Esso, programa que ele também não perdia, sob hipótese alguma.

     A varanda era muito comprida. O corredor da varanda era em L invertido. Na outra ponta do L, estava, ladeando a escada que dava para a sala de jantar, um canteiro estreito, onde reinava absoluta a Dama da Noite, exalando seu exótico perfume. À frente da casa, junto ao portãozinho de entrada, uma frondosa e florida primavera. Ali, junto a uma escadinha de degraus largos, minha mãe cultivaria suas rosas e plantas prediletas. Este jardim acabava num corredor muito comprido, de piso cimentado, que passava por todas as janelas da ala  leste:  sala de música ( antes era sala de visitas),  quarto de minha mãe, quarto de  Renée e Nilce,  o da minha avó, a cozinha e copa, ainda  o banheiro e  a cozinha caipira. Comprido, mesmo! E, acabado o corredor, abria-se um quintal largo, amplo, com espaço para canteiro de plantas e ervas, galinheiro, quarto e banheiro de empregada, tanques de lavadeiras, varais, um majestoso abacateiro e  estacionamento para muitos  veículos. Naquela época só o carro de Alfredo.
     A fachada da casa seria, anos mais tarde, completamente modificada, dando lugar  a uma varanda, apelidada -- perdoem o narcisismo- ( eu apelidei, hahahá) de jardim suspenso de Bauru.
     Em prazo curto, no canteiro cosido ao muro, seria plantada uma videira tratada a pão-de-ló, a menina dos olhos de minha mãe. Além das uvas roxas e doces  com que nos prodigalizaria, cobrir-se-ia de folhas tenras, num tom verde claro, as prediletas para um dos pratos mais apreciados da culinária libanesa: charutos de folhas de uva. Em casa, todos nós apreciávamos muito esta iguaria, feita de modo inigualável por Sálua.

     No cochichar das vozes juvenis e infantis, excitadas e felizes com a mudança, ao som da Hora do Brasil, embalados pelo forte perfume daquela dama brasileira, assim foi nossa primeira noite em Bauru. Não esqueço nunca o semblante preocupado de Alfredo. Que terrores podiam povoar sua mente? Ele que nunca foi de temer nada?

Nenhum comentário:

Postar um comentário