26 - MUDANÇA PARA BAURU

1938
As fotos dos carnavais marcam nosso adeus a Piratininga.

1940
Em virtude das peraltices do Nassib, que descia do trem em movimento ( meus irmãos mais velhos estudavam em Bauru), e das reclamações do chefe da estação sobre o comportamento deste meu adorado irmão, mamãe conseguira convencer meu pai de que era necessário mudarmos para Bauru. Não era o que meu pai desejava: sentia-se muito feliz em Piratininga, cercado de amigos, perto da fazenda, para onde ia diariamente. Mas sabia que Sálua estava com a razão. Mesmo contrariado, comprou uma bela e grande casa, na rua Cussi Júnior, próxima ao clube da cidade. Próxima? Vizinha, mesmo. Meia quadra separava o lar dos Nemes do que seria, depois de uma reforma, o maravilhoso e fantástico Bauru Tênis Clube, Transatlântico de Concreto.
A casa tinha um portãozinho alto, enfeitado com uma primavera de flores cor de vinho. Uma grande e comprida, mas estreita varanda, muitos e muitos quartos ( afinal eram nove filhos e mais minha avó, Fada) Um quintal enorme, com galinheiro ( não vale rir), dependências para empregada, garagem, um grande abacateiro, árvores, uma videira, jardim na frente da casa, com plantas de que minha mãe cuidava com todo o amor.Um primor de moradia!
Meus pais, na varanda, como a receberam nos anos 40, antes de, nos anos 50, reformá-la)
As fotos dos carnavais marcam nosso adeus a Piratininga.

1940
Em virtude das peraltices do Nassib, que descia do trem em movimento ( meus irmãos mais velhos estudavam em Bauru), e das reclamações do chefe da estação sobre o comportamento deste meu adorado irmão, mamãe conseguira convencer meu pai de que era necessário mudarmos para Bauru. Não era o que meu pai desejava: sentia-se muito feliz em Piratininga, cercado de amigos, perto da fazenda, para onde ia diariamente. Mas sabia que Sálua estava com a razão. Mesmo contrariado, comprou uma bela e grande casa, na rua Cussi Júnior, próxima ao clube da cidade. Próxima? Vizinha, mesmo. Meia quadra separava o lar dos Nemes do que seria, depois de uma reforma, o maravilhoso e fantástico Bauru Tênis Clube, Transatlântico de Concreto.
A casa tinha um portãozinho alto, enfeitado com uma primavera de flores cor de vinho. Uma grande e comprida, mas estreita varanda, muitos e muitos quartos ( afinal eram nove filhos e mais minha avó, Fada) Um quintal enorme, com galinheiro ( não vale rir), dependências para empregada, garagem, um grande abacateiro, árvores, uma videira, jardim na frente da casa, com plantas de que minha mãe cuidava com todo o amor.Um primor de moradia!
Meus pais, na varanda, como a receberam nos anos 40, antes de, nos anos 50, reformá-la)
Lembro-me da primeira noite nesta casa, que foi meu lar por
tantos e tantos anos e onde a felicidade chegou a morar por muito tempo.
Todos
estavam acomodados, tudo em ordem: o quarto de meus pais, o quarto de
minha
avó, o do Nelson e Wilson, o do Labib e Nassib, o da Alice, no qual eu
dormia
frequentemente, o da Nilce e Renée, no qual a Norma se impunha. É!
Nós duas sempre
queríamos dormir com a Renée e com a Nilce, que era muito divertido.
Sempre a Norma ganhava
estas disputas, aliás como todas as outras. E assim eu dormia no quarto
da
Alice, mimosa, muito carinhosa comigo. Posso dizer que naquela época eu
era a preferida dessa minha irmã, cheia de personalidade. Ela sempre
soube impor
seu pensamento, suas vontades. E inventara um apelido pra mim: Suna. Até
hoje me pego lembrando-me de sua voz me chamando docemente:
--Suna!
--Suna!
Do dia da mudança não me lembro como foi, Afinal. deveria ter uns quatro anos , se tanto. Mas à noite, na
nova casa, recordo-me que tudo estava em perfeita ordem. Incrível como minha
mãe conseguiu esta proeza.
Meu pai, na sala de jantar, preocupado e nervoso por causa
da mudança, ouvia, curvado sobre o aparelho de rádio, as notícias da Hora do Brasil. A um olhar
zangado sobre nós, que conversávamos e ríamos na copa, mamãe fechou a porta,
para que ele pudesse ouvir melhor o noticiário. O som do rádio vinha com ruídos de ondas e nem
sempre era possível ouvir com clareza o que o repórter dizia.
Depois havia o
Repórter Esso, programa que ele também não perdia, sob hipótese alguma.
A varanda era muito comprida. O corredor da varanda era em L
invertido. Na outra ponta do L, estava, ladeando a escada que dava para a
sala de jantar, um canteiro estreito, onde reinava
absoluta a Dama da Noite, exalando seu exótico perfume. À frente da
casa, junto
ao portãozinho de entrada, uma frondosa e florida primavera. Ali, junto a
uma escadinha de
degraus largos, minha mãe cultivaria suas rosas e plantas prediletas.
Este
jardim acabava num corredor muito comprido, de piso cimentado, que passava por todas as janelas da ala leste: sala de música ( antes era sala de visitas),
quarto de minha mãe, quarto de Renée e Nilce, o da minha avó, a
cozinha e copa, ainda o banheiro e a cozinha caipira. Comprido,
mesmo! E, acabado o corredor, abria-se um quintal largo, amplo, com
espaço para
canteiro de plantas e ervas, galinheiro, quarto e banheiro de empregada,
tanques de lavadeiras, varais, um majestoso abacateiro e
estacionamento para muitos veículos. Naquela época só o carro de
Alfredo.
A fachada da casa seria, anos mais tarde, completamente modificada, dando lugar a uma varanda, apelidada -- perdoem o narcisismo- ( eu apelidei, hahahá) de jardim suspenso de Bauru.
A fachada da casa seria, anos mais tarde, completamente modificada, dando lugar a uma varanda, apelidada -- perdoem o narcisismo- ( eu apelidei, hahahá) de jardim suspenso de Bauru.
Em prazo curto, no canteiro
cosido ao muro, seria plantada uma videira tratada a pão-de-ló, a menina dos
olhos de minha mãe. Além das uvas roxas e doces
com que nos prodigalizaria, cobrir-se-ia de folhas tenras, num tom verde
claro, as prediletas para um dos pratos mais apreciados da culinária libanesa:
charutos de folhas de uva. Em casa, todos nós apreciávamos muito esta iguaria,
feita de modo inigualável por Sálua.
No cochichar das vozes juvenis e infantis, excitadas e
felizes com a mudança, ao som da Hora do Brasil, embalados pelo forte perfume
daquela dama brasileira, assim foi nossa primeira noite em Bauru. Não esqueço
nunca o semblante preocupado de Alfredo. Que terrores podiam povoar sua mente? Ele que nunca foi de temer nada?
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