terça-feira, 1 de março de 2016

47 - Fada e eu

47 - Fada e eu


     Minha avó era uma figura inesquecível. Sempre vestida com cores escuras, ou preto, ou marrom. Cabelos lisos e, nos últimos anos, brancos, até à cintura, presos em coques, ou em uma única trança. Vestes longas, até os pés. Às vezes um xale cobrindo os ombros.      
     Olhos castanho-claros, beirando o verde, grandes e belos, rosto bem feito, não era destas avós que o tempo deixara com a pele encarquilhada. Tinha rugas, sim, lógico, viveu  98 anos. Mas sua pele, nem de longe, se assemelharia a um maracujá seco, comparação usual em nossos dias. Tinha um ar soberano, altivo, que meu pai herdou.     
     Frequentemente falava sozinha em árabe. Recusou-se sempre a falar em português. As empregadas a respeitavam e a temiam. Fada não confiava nelas nunca. Às vezes implicava tanto com as domésticas que elas desistiam de trabalhar em casa. Depois que nos mudamos para Bauru, ela sossegou um pouco. Apesar disto, sempre estava atenta, para que ninguém roubasse algo do lar de seu filho. Era um olhar vigilante, sério, que atemorizava quem trabalhasse ali.

     De manhã e à tarde sentava-se numa poltrona  da  varanda e apreciava o movimento da rua sossegada. Ficava só e falava consigo mesma em árabe. Quem passasse por ali, talvez até tivesse um pouco de medo. Aquele ar majestoso, aquelas roupas longas, escuras, de mangas compridas, mesmo no quente verão de Bauru, aquele cabelo branco preso num coque, e aquelas frases numa língua desconhecida, ah, era uma figura memorável.

     Eu sentia um pouco de constrangimento, perante minhas colegas, cujas avós falavam português. A língua árabe, áspera e gutural, em relação à nossa sempre causava estranheza em quem ouvisse. (Hoje fico endoidecida quando vejo um filme ou um documentário em língua árabe. Saudade de quem falava esse idioma, carinhoso, cheio de palavras ternas, ya iúne, habib, ya ruhi, ya albi) Mas eu tinha a sorte de ter uma avó. A única que conheci. Todos os outros três avós faleceram antes de nascermos, portanto meus irmãos e eu nos sentíamos bem afortunados por possuirmos, pelo menos, uma avó.

     Quando minha avó adoeceu, foi uma tristeza. Minha mãe cuidava dela com todo o carinho. Seu coração benevolente deixara soterrados na memória aqueles anos em que sua tia e sogra fora mais, bem mais sogra que tia, perseguindo-a, contrariando-a, quase intrigando-a com meu pai. Minha avó se rendera ao  bom caráter de Sálua. E, no dia a dia, demonstrava amor e respeito pela nora. Frequentemente lhe dizia:
     -- Sálua, quero que, quando morrer, suas mãos cerrem meus olhos.
     Nestes dias de doença de nossa sêti, eu me sentava ao lado de sua cama e perguntava-lhe.” Sêti, dá pra mexer a mão?” Ela pacientemente erguia alguns dedos e eu, ingenuamente, achava que ela estivesse melhorando. Eu tinha oito anos e aquela doença me apavorava. Minha avó ficara sem falar e sem andar.

     O dia de Natal era duplamente festejado em casa. Aniversário do Rei do Mundo e aniversário da Rainha do Lar, minha mãe. Pudemos, mesmo com a sêti doente, comemorar discretamente a ceia de Natal. 
     No dia 26 de dezembro, de 1944. sêti foi encontrar-se com o gêdi, e contar como, a duras penas, conseguira criar os filhos sem ele.
     Minha sêti, foi tão bom ter uma avó que sabia contar tão lindas histórias!

     Keniamakén, abuluzamén!

Nenhum comentário:

Postar um comentário