34 - A Audição do Bolerinho Preto
Durante o curso de piano, havia duas audições ao ano. Uma, pra encerrar o primeiro semestre. E a segunda, a mais importante e aguardada com ansiedade e frisson, para encerrar o ano letivo, com as melhores performances dos estudantes.A esse entusiasmo, somava-se a emoção de tocar no magnífico piano de cauda do Salão. Preto, majestoso, atraente e intimidador.
Era 1953, novembro. Eu estava no 7o ano do Curso de Piano e no 1o clássico, do curso colegial, que funcionava só à noite. A audição começaria às 20 horas, no Salão Nobre do Colégio São José. E havia uma prova de Inglês, na primeira aula no Instituto de Ed. Ernesto Monte. Não era de meu feitio faltar às provas, portanto lá fui eu pra escola da Agenor Meira, toda vestida paro recital, com colarzinho, brincos, e uma carinha mais pintada de batom.Tinha 16 anos. Toda produzida, de vestido novo, de decote em u, acabei por chamar a atenção do nosso professor de Inglês, Cléstenes, que me elogiou, com carinho.( Como gostava desse professor!)
Fiz a prova, despedi-me dos colegas e do professor e corri para o portão, onde o Labib já me esperava pra me levar ao segundo destino.
Bom, meu vestido era de um chiffon estampado de flores miúdas, e sem mangas. Conhecendo bem o temperamento da Diretora do Conservatório, Irmã Jacinta, intransigente quanto ao vestuário das alunas, um gracioso bolerinho - de mangas, lógico - completava meu look. Era de seda ou tafetá preto, com gola imponente, e bem estiloso, o que poderia até valorizar o vestido, simples e de bom gosto.
Assim que cheguei, dirigi-me às coxias, onde já se encontravam as demais pianistas. Mas, oh! algumas choravam. Outras falavam baixinho, reclamando evidentemente de algum ocorrido. Não demorou nem um minuto pra que eu ouvisse os brados da Irmã Jacinta, contra as despudoradas que se apresentavam com vestidos sem manga. E eram impropérios, eram ameaças, eram olhares fuzilantes e panos pretos das mangas do hábito agitados em fúria.
Quando cheguei, houve uma pausa entre os soluços das colegas. O programa era mais ou menos de umas vinte e cinco peças musicais. Eu tinha a honra de encerrar a primeira parte.
As colegas se desesperavam: o flerte de uma delas estava ali, à espera de vê-la e ouvi-la. Mas não tocaria, por nossa amável diretora se insurgir com aqueles braços desnudos. A Irmã Jacinta não transigia. Quem estivesse escandalosamente sem mangas não tocaria na audição. As professoras, como Daicy, tão compreensivas e nossas amigas, assistiam à insólita cena sem poder interferir, que com a mala da Irmã Jacinta não havia acordos.
A primeira que tocaria na audição aproximou-se de mim e :
-- Sônia, por favor! Empreste-me seu bolerinho.
Sem chance de dizer não. Lá foi meu lindo bolerinho ser estreado no maior estresse.
Nem bem começou a tocar a primeira música do programa e já a segunda se aproximava de mim com o mesmo pedido, ou súplica:
~~ Posso usar seu bolerinho?
Pobre querido, mais uma vez longe de mim. Lá foi ele tocar a segunda música. Como eu, deveria estar aturdido.
Quando, pela terceira vez, o bolerinho adentrou ao palco e se sentou com a pianista na banqueta do piano de cauda, umas risadinhas começaram a se ouvir.Era o pianíssimo. Uma ou outra risadinha, meio tímida quase escapava de alguns.
E, a cada vez, que o bolerinho surgia no palco, as risadas se tornavam mais desinibidas.
Só na primeira parte da programação, meu bolerinho esteve no palco umas seis vezes. E as risadas, já desinibidas, num mezzo forte.
Pra não faltar com a verdade, algumas alunas estavam impecáveis e se safaram dos açoites da Irmã Jacinta. Acredito, no meio das nebulosas lembranças, que Lígia, Cariene e mais algumas tenham deixado meu bolerinho em paz e se safaram, como eu, dos gritos e da indignação possessa da Irmã Jacinta, no auge do furor em defesa dos bons costumes.
Chegou minha vez. Era a última a tocar na primeira parte da audição. Aquilo que poderia ser uma glória, foi minha hecatombe. Do crescendo, as risadas tinham passado ao fortíssimo, escancaradas e irreprimíveis. E eu, com minha peça de estilo já amarfanhada e sucumbida pelo peso da galhofa, bem eu, toda acanhada, levei no rosto uma saraivada de risos e gargalhadas.
Bom, o estudo de Chopin, op. 10, número 5, conhecido como O Estudo das Teclas Pretas, que eu tocaria, era de andamento rápido. mas, com a vergonha e a raiva que montaram em mim e no meu bolero, foi um foguete que meus dedos dispararam. Deveria ser tocado assim.https://www.youtube.com/watch?v=gtG4RvIaFfA
Enfim terminou a comédia - e meu bolero foi o mais assíduo também na segunda parte. E a plateia rindo forte, sem nenhuma caridade. Nem sei quem mo devolveu. Vesti-o. Afinal: o bolerinho era meu.
Quando saímos do nem tão nobre Salão Nobre, depois dessas desventuras, ouvi um moço alto comentando:
-- Quem tocou mais depressa foi a que encerrou a primeira parte.
Ó céus!! Alguém prestou atenção na pianista e não no bolerinho preto. O coitadinho, abatidinho depois de tantas andanças, amassadinho após abrigar tantos corpos diferentes, defendendo-os da sanha verbal da diretora do Conservatório, esmaecido sem o brilho com que chegara, ficou mais mortificado do que nunca! E ele nem sequer poderia adivinhar o destino que o esperava: o silêncio bem-vindo do fundo da gaveta, sem Chopin, sem teclas pretas ou brancas, sem zombarias, pra nunca mais ser usado.
E o paradoxo que o tempo traz: como hoje me faz bem a lembrança daquela audição inesquecível. Saudade de tudo, até da Irmã Jacinta. E uma saudade risonha e deliciosa do inocente (tamanho único) bolerinho preto,
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