35 - Benê
Pois aquele comentarista da Audição do Bolerinho Preto iria se tornar meu mais querido colega do Conservatório.
Benê era de família muito prestigiada de Bauru, os desbravadores da Educação em nossa cidade. Os fundadores de uma das melhores escolas da Cidade Sem Limites.
No oitavo ano, nós, estudantes e amantes do Curso de Piano, nos unimos muito, conhecendo-nos, reunindo-nos, fazendo nossos saraus musicais.
Ora nosso local era a casa da Nilsen, ora na casa do Benê. Ora na minha.
Benê era alto, muito magro, um tanto desengonçado nos gestos, e, sem dúvida, era o principal aluno do Conservatório. Era o melhor aluno? Não! Era, sim, o mais simpático a todos, fossem professores, colegas, ou público.
Nas audições sofria um lapso: de repente, no meio da peça, suas mãos paravam no ar, esquecia-se da continuação e, por longos segundos, pensava na melhor decisão a tomar. Aí, sem olhar o público que ficava em suspense emotivo, recomeçava a tocar a peça desde o início e, às vezes, parava no mesmo trecho. Moto perpetuo: começava de novo até conseguir desengasgar aquela parte. E, quando, finalmente, se levantava da banqueta, triunfante, o povo irrompia em aplausos entusiásticos e apaixonados.
Carisma. Simples assim.
Benê tinha um sonho, que era o de todos nós do curso de piano: ganhar um piano de cauda. Mas as audições se sucediam sempre no mesmo embate: esquecimento da partitura, recomeço etc, etc.
O pai do Benê valeu-se desse fato pra instigar o filho a não mais se esquecer da partitura.Se sabia tocar de cor, tinha que tocar de cor. E fez-lhe uma proposta: se tocasse, na audição do 8o ano, sem parar, sem esquecimentos, poderia chamar de seu o piano de cauda.
Final de ano. Audição.Todos foram se desincumbindo maravilhosamente com suas peças escolhidas. Quando Benê irrompeu no palco, com aquele seu jeito desarticulado, foi o começo de uma vitória. Era uma peça própria do 8o ano, portanto com dificuldades. E ele a executou sem parada nenhuma. Foi uma apoteose. Pediam bis. Público em pé. Benê sentou-se e começou a dar o bis com a mesma peça. Mas ... ó deuses , ó Santa Cecília, padroeira da Música! Num determinado trecho da execução, de repente, as mãos estacam. Não conseguem seguir. O público já o conhece. Espera o recomeço e o desengasgo. E assim acontece.
Delírio do público! Aplausos entusiásticos.Público em pé. Uma alegria no ar. Benê, energia, alegria, simpatia, carisma!
Os saraus do nono ano teriam muito mais glamour: na sala da casa do Benê, esperava-nos um brilhante, reluzente piano preto de cauda, paixão do Benê. Ele o mereceu!
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