quarta-feira, 11 de março de 2015

32 - Colégio São José



                         32 - COLÉGIO SÃO JOSÉ
      

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       Comecei a estudar aos sete anos. O Colégio São José ficava a uma quadra e meia de casa. Escola enorme, com prédio imponente de escola grandiosa. Pátios imensos, onde, no início do período, se postavam as alunas de cada classe em fileiras. Nestes tempos do então primário, cantávamos sempre um dos hinos pátrios antes de nos dirigirmos às salas de aula. 
        Enquanto as primeiras séries estudavam nas salas do térreo, as classes mais avançadas, a partir da 1ª do antigo Ginásio, subiam as escadarias, de granito polido, imaculado na limpeza, para as salas do primeiro andar. Eram salas amplas, com sete fileiras, ou oito, cada fileira com sete ou oito carteiras, pelo que me lembro. Como eu era das mais altas, sempre ficava na quarta ou quinta carteira da fileira.

        No andar de cima, ficava a Capela do Colégio São José. Era linda demais. Aos domingos, assistíamos à missa, e, não raro, alguma aluna desmaiava. Eu própria, certa vez, senti uma vertigem. Não cheguei a cair, mas foi por pouco. 
        Expliquemos estes desmaios: íamos à missa em jejum, e a Capela era abafada. Com o calor, muitas mulheres usavam leques que exalavam perfume de sândalo. Ai, aquele cheiro mexia com o estômago. Era inevitável: ou ânsias de vômito, ou desmaios, caso de algumas amigas. 
         Mas isso nem conta perto do prazer de entrar e rezar naquele local. Para mim, será sempre a mais bela capela. Meus olhos não desgrudavam da parte de cima, onde ficavam as religiosas, o órgão e o coro. Tudo ali era um brilho só. As coisas faiscavam. Os santos parecia morarem ali. Parecia que nos esperavam

         No primeiro andar também é que funcionava o Conservatório Musical. No sentido inverso do da capela. Entrando pela Antônio Alves. Quando a gente se aproximava, já se ouviam diversos pianos, sob os dedos dos alunos, e, muito mais dos das alunas, cujo número sobrepujava de longe o de meninos. Aquele entrechocar de sons era o sangue do Conservatório. Como um perfume, espalhava-se pelos corredores, descia as escadas, ganhava a rua, os vizinhos, os transeuntes. 
     Havia muitas salas no Conservatório de Música e uma era a da minha querida professora Daici- leia-se Deise - com quem aprendi a estudar e a amar piano.

     No Colégio São José, no primeiro ano, do então primário, lembro-me que havia, nas classes, uns meninos. Depois eram só meninas. 
     A minha primeira professora me odiava. Não sei a causa deste sentimento negativo. Eu nunca lhe respondi, nunca cheguei a abrir a boca em sua aula. Quando ela me olhava, sentia seu rancor sobre mim. Ela era tia de uma colega minha, cujo nome não declinarei,  E esta professora também lecionava piano, no Conservatório, onde eu começara a estudar, sem nenhuma vontade.  Sei não! Será que a tal professora era rival de alguma das minhas belas irmãs? O que poderia ser? Ou fora desprezada por algum dos meus irmãos? Só sei que a timidez me matava. Quando a Madre Superiora, no final do ano entrou na sala de aula, a minha querida professora crudela cochichou, sem cerimônia, com a Madre, Clara, olhando-me desabridamente e com ar escancaradamente perverso. Já comecei a ficar vermelha e preocupada. Não demorou e chamou-me para a prova, veja só. Recitar o Pai Nosso. Canja de galinha. Mas eu não contava com um problema: minha timidez. Minhas faces queimavam, minha voz mal soava, claro que eu sabia rezar a oração. Simplesmente a timidez montou em minha pobre cabeça, e, gaguejando, coberta de vergonha de ser exposta assim, fui capengando a oração. Resultado da minha performance: reprovação. Foi isto mesmo! Fui reprovada por timidez, por não conseguir enfrentar o olhar das duas sobre mim e o da classe toda, espreitando minha agonia. Acreditem: logo o Pai Nosso. 
     O pior: a dita cuja professora também era a minha professora no Conservatório. Azar assim nunca vi. E a perseguição continuava no Conservatório. A surpresa que eu tive na hora do exame de piano, ao ouvir as outras colegas tocando uma peça de Bach! Eu a tocava em andamento totalmente errado. (Você, sua mocréia, me ouviu tocar tantas vezes e nunca me corrigiu. Mas na hora da minha apresentação, eu mesma consegui tocar no andamento correto. Que surpresa, hem, sua Crudela! Viu só, sua lambisgóia?)  E no Conservatório fui aprovada. Há! Há! Há!
        (Também, Dona Bruxa, travestida de professora, meu coração soube retribuir à altura àquele sentimento de rancor e raiva, que percebi sempre em seus olhos. Nem sequer me lembro de seu nome. Mortinha na cabeça. Nem me lembro de seu rosto, nem de sua voz. Infelizmente não me esqueci de seu rancor inexplicável. Teria eu uma aparência tão sórdida e execrável a ponto de inspirar tanta aversão?)

     Mas, no ano seguinte, estava na 1ª série B. Opa! Evoluí: da 1ª série A pra 1ª série B.

     Minha nova professora no Colégio era freira, jovem, com faces claras e rosadas. Irmã Hortênsia. O hábito preto, com talas brancas na testa, escondia todo o corpo dela. Só se viam as mãos e o rosto, de pele lisa, clara, olhos castanhos. Logo na 1ª aula, chamou-me ao quadro negro. Colocou uma conta pra eu resolver. Era de adição. Fi-la. Olhou-me assombrada!
        -- Muito bem!
       Deu-me outra conta, agora de subtração. Fi-la. Olhar de assombro;
       -- Ótimo! 
       E mais uma de divisão. Mais uma vez acertei. Foi a glória. Estava compensada de todo ódio que a professora anterior me dedicara.

     Foi nesta primeira série B que conheci a Eloah, uma garotinha loirinha, delicada, e ótima aluna. Talvez fosse a aluna número um.  Certa vez, foi estudar em minha casa, mas eu era supertímida e mal consegui acompanhar a conversa. Não foi uma boa experiência. Fiquei muito inibida, embora estivesse em minha própria casa. De qualquer maneira, saímo-nos bem na prova do dia seguinte.

     A Irmã Hortênsia me amava! Desde a 1ª aula. E até à Faculdade. este sentimento bom, quente, me acompanhou, incentivando-me aos estudos. Irmã Hortênsia, como foi importante em minha vida! Amarei você sempre. É preciso dizer obrigada? Só se for de joelhos.

     A 2ª série trouxe-nos uma professora de nome exótico: Dona Fanny. Linda, alta, cabelos negros, olhos à la Capitu, oblíquos. Eu sentia o maior orgulho em carregar seus livros, após a aula. Ela morava pelos lados da Gustavo Maciel, por onde eu subia. Ela era tão carinhosa, que, de quando em quando, eu abria a cristaleira da sala, pegava um daqueles vasinhos delicados de porcelana chinesa, e lhe levava de presente. Minha mãe nunca se importou. E a minha querida professora aceitava, delicada, silenciosa, a homenagem..

     Na terceira série, conheci a mais incrível professora de minha vida: Irmã Arminda Sbrissia. Não que contasse piadas, ou fizesse cenas de teatro para nos impressionar. Não e não. Sua aula era como você estar num lago, em paz, sossegado, sem ansiedades ou medos. Tínhamos um livro de Língua Portuguesa bem diferente dos que se veem hoje. Não havia coloridos, nem fotos, nem gravuras. Nem espaços pra completar, desenhar ou pintar. O livro era só livro e não caderno. Nele constavam, em resumo, texto, vocabulário, questões sobre o texto, gramática e questões gramaticais. Todas as respostas eram escritas no caderno. O livro era sem colorido visível, mas dele se irradiava uma luz que enxergo até hoje. Talvez houvesse um desenho, em branco e preto, ao lado do título do texto, com alusão ao conteúdo do que se leria a seguir, Lembro-me da textura fina das páginas e de como o livro era grosso e pesado, em relação aos de história ou geografia. Havia nele muita lição, muitos textos, muitos exercícios. E na parte de estudo do vocabulário, Irmã Arminda mandava que grifássemos as palavras mais incomuns, dentro de nosso parco saber de nove anos, pesquisássemos no dicionário seu significado e elaborássemos frases que as contivessem. Era um exercício simples, mas dava margem a muita criatividade. (Quando me tornei professora, também usei dessee artifício para a fixação de novo vocabulário.  E surtiu em meus alunos o mesmo efeito que eu sentira em mim, há tantas décadas atrás. Um frenesi por dicionários e um afã por frases bonitas, sonoras, sugestivas, originais....  )
      Irmã Arminda, inspiradora! Não me lembro de uma aula sua em que houvesse bagunça, tagarelice. Nem houve nenhum sermão da montanha por causa de indisciplina. Sua autoridade era tão natural, tão transparente, vinha lá do fundo de seus olhos, atrás dos óculos de grau, vinha talvez da voz doce e serena, ou então da figura magra, de pequena estatura, aureolada por luz celestial. Assistíamos às suas aulas completamente envolvidas por ela, sem medo de admoetações ou reprimendas. Irmã Arminda era muito eficiente. As aulas dela voavam, porque tudo que ela fazia era interessante e não era fastidioso. Aqui e ali, ríamos de sua presença de espírito, seu humor refinado, que trazia ao nosso convívio um mundo inteligente, interessante e de horizontes largos. Hoje os pobres professores, no mais das vezes, pra atrair o aluno, têm que contar anedotas, zombar de algum aluno ou figura proeminente do país, ou fazer coisas do gênero cômico. Irmã Arminda era a autoridade pura. A semeadora da luz do saber, do brilho da inteligência, do encanto do estudo em nossas mentes.

     No recreio, assim chamávamos o intervalo, brincávamos muito e minha brincadeira favorita era pular corda. Era bem divertido. Não tinha nenhuma amiga mais chegada. Quase não conversávamos. Era só pulando, pulando. A glória era entrar com a corda batendo. Isto era o “must
     No quarto ano, foi a vez de uma professora muito anárquica: Irmã Júlia. Era italiana e o erre que ela falava era sempre ere. Só risadas! E eu, rindo, nem conseguia prestar atenção à aula. Desta classe, lembro-me de algumas colegas: Maria Aparecida Lima: sentava-se na primeira carteira e era cheia de papos com a Irmã Júlia, que a adorava. Maria Aparecida era risonha e sempre contava casos engraçados, com que nossa professora se divertia. Amiúde a Irmã Júlia ficava conversando baixinho com ela, esquecendo-se do resto da classe. Mas ninguém se importava. A aula era sempre bagunçada mesmo. Muito vozerio, muito riso. Acho que foi nesta época que conheci muitas das colegas que fariam o ginásio comigo.

     A primeira série do antigo e saudoso ginásio era pura emoção.    
     Tínhamos uns dez ou onze professores. Era tão diferente, tão fascinante! Dona Ida Pólice, História; Wanda Tourinho, Geografia; Irmã Hortênsia, Francês; (Sim, ela voltou!) Dona Clélia, Ed. Física; Prof. Aníbal, Ciências e Latim; Irmã Júlia, Matemática (Oh, não!); Dona Graciema, Português, Prof.;Economia Doméstica  (?) ,infelizmente não me lembro; Desenho,acho que era a Irmã Júlia; Música, Dona Teresinha;  Religião, Irmã Arminda. Ah, ela sempre foi tudo no São José. E, nos anos seguintes, voltaria a nos ensinar Português.

     Nesta série acredito que tenha feito uma boa amiga, Kimie Uemura. Ela morava na Av. Duque de Caxias, entre a Gustavo e Rio Branco. E eu morava na Cussi, entre as mesmas ruas. Portanto, pra eu ir a sua casa, era só subir a Gustavo Maciel. Muitas vezes estudamos juntas e eu gostava muito dela. Não sei como nos perdemos uma da outra logo depois. Nunca mais soube notícias suas. Só tenho boas recordações dessa garota. Lembro-me que nos dávamos muito bem. Ela não era das tímidas, não, como se possa pensar. Já demonstrava que não seria a típica japonesa da época, que nem abria a boca. Era cheia de personalidade. Engraçado, eu, tão tímida e insegura, mas ia sozinha à casa da minha amiga, andando uns bons quarteirões. Vai ver que eu não era tão insegura e tímida como me lembro.

     Na segunda série (hoje sexta), no período da manhã, conheci as meninas cujos nomes sei de cor até hoje.

Ana Maria Pádua Lopes Da Silva

Luci Porto

Laurici Fassoni.

Lia Dalva Frederigue

Maria Inês Salvador (estou em dúvida se era Marinês)

Marilda Tayano Machado

Georgina Machado

Maria Teresa Pádua Lopes da Silva

Têmis Lopes

Marilene Carneiro

Zilma Comegno

Nilcides Teresinha de Carvalho



     Eu me sentava atrás da Lia, ao lado da Laurici.  Naquela época, a Laurici já adorava músicas estrangeiras e, frequentemente, levava letras de músicas em inglês ou francês. Because of you, Be my love, Que Reste T’il... Oh, my love, my darling…E, nos intervalos, ficávamos cantando. Laurici, até hoje sei estas letras de cor. Graças a você.
      Todas estas meninas eram lindas. Tinham um sorriso de dentes perfeitos. Era uma grande mágoa com que eu vivi: meus dentes serem projetados, principalmente o mais importante deles, o da frente. Além disso, os da arcada inferior eram muito separados. Sempre tive muita vergonha. Mas, como sempre foram branquinhos, pude rir à vontade. (Ignorante, do jeito que eu era, achava que eles ainda iriam se corrigir sozinhos. Além de tudo, ingênua e burra.)

     O São José era meu mundo. Era majestoso, organizado, disciplinado. E limpo. Onde você olhasse, estava imaculado, cheiroso e brilhante. Os banheiros? Nunca entrei num, preferia sempre segurar tudo até voltar pra casa. Às vezes, alguma amiga me convidava: 
       --Vamos comigo na casinha?
        Casinha era o eufemismo de banheiro. Eu a acompanhava, mas nunca entrei num box. (Superfantástico, hem?  Passar oito anos de estudos no São José sem nunca fazer sequer xixi em seus banheiros. Devia entrar para o Guinness.)

     Outra amiga desta época foi a Zilda, já naquela época, a Zilda namorava o Pedro, com quem veio a se casar. Zilda era alta, como eu, ( como eu pensava que eu fosse ), clara. Passávamos sempre juntas o recreio, conversando.

     Muitas destas amigas eram também colegas no Conservatório.
     Uma grande amiga era a Marília Barbosa, cabelos negros, olhos verdes. que, anos mais tarde,  se casaria com Victor Hugo! Sim!! 
     Outra grande amiga, da época, era a  Yara, muito bonita, que naquela época já tinha namorado. Éramos muito unidas e eu era sua confidente.
     Lia, Laurici, Marinês e eu, sentadas próximas, tínhamos muitas afinidades, principalmente musicais. Algumas delas já estavam interessadas nos garotos. E uma delas se casaria com o dono de seus sonhos na época. Outras, como eu e a Marinês, nem sonhávamos como seria nosso futuro. Ah, a Marinês! Era delicada e nos comprimentava com um: " Oííííí!"

     Muitas vezes, ao sair da escola, subia a Gustavo com a  .... a sobrinha da minha Crudela. Nossos papos eram de uma profundidade invejável: 
     -- O que você comeu hoje no almoço? -- A outra: 
     -- Arroz. Feijão, bife, salada, ovo frito-- E a outra: 
     -- Ah, eu comi batata frita.
      Nem preciso falar que as duas filósofas em questão eram fortinhas. Engraçado. Como é que ela também estava na minha classe? Será que ela também não soubera rezar o Padre Nosso?

     O Colégio São José, nas datas festivas, sempre fazia bonito nos desfiles. Só que íamos sempre atrás  de outra escola, porque não tínhamos fanfarra, que naquela época só se formava com meninos. E as últimas fileiras do desfile se ressentiam porque a banda do outro colégio ficara bem longe, não se ouvindo mais a música, que marcava o passo e  que enchia de brio os estudantes. Sem a fanfarra, o que se ouvia era o barulho dos sapatos dos alunos, uma coisa muito desagradável e sem graça. Além de castigar os ouvidos, aquele arrastar de sapatos no chão agredia o próprio desfile, pois cadê a grandiosidade?
     Tínhamos uniforme especial para os desfiles. Uma boininha muito linda, azul-marinho, luvas brancas, meias soquetes também brancas, saia azul-marinho, de suspensórios largos, que me irritavam demais, porque nunca paravam no ombro, blusa branca de mangas longas, sapatos pretos, lustrosos, novos. (Até hoje, ao ver sapatilhas de vernis, meu pensamento faz viagem ao tempo passado.)
        O uniforme diário era mais ou menos este, sem as luvas, sem a boina, e a blusa podia ser de mangas curtas, apesar de que, na foto em que estou, no quintal de casa, com a Norma, ambas estamos de mangas longas. Eu adorava as blusas cujo tecido branco tivesse algum detalhe, ou miúdos pinguinhos bordados, lógico em cor branca, ou listras, do mesmo tecido, só que mais brilhantes. Um encantamento. E as blusas de piquê! Lindas e inesquecíveis.

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       Sonhos e pesadelos





     Para a Educação Física, havia outro uniforme. Sainha branca,  pregueada, keds, blusa e, meias brancas. Muito fofo tudo isso! As aulas eram com Dona Clélia, de cuja língua eu morria de medo. O que não se podia dizer desta professora é que fosse delicada, fina. Era grossa, direta, rude, sem papas na língua. Chamava a gente de lerda, molenga e de outras coisas assim tão agradáveis. Nunca tive jeito para o  esporte. E ela não soube fazer brotar em mim este interesse. Havia aquela prova de equilíbrio, andando no cavalo. Ah, eu só caía e esfolava os joelhos, na terra meio áspera. E olha que eu tentava. Uma vez, fiquei treinando, treinando, e caindo, caindo, até meus joelhos implorarem perdão...  Dois passos e... chão. Quatro passos e...mais chão.  Nestas tentativas todas, se consegui andar duas vezes sobre o bendito cavalo, foi muito. Se ela viu meu esforço?  Viu e nem ligou.  Fiquei com uma bronca desta disciplina que foi difícil curar.

     De todas as aulas, as do Prof Aníbal eram das que eu mais gostava. Ele dava aulas de Latim e de Ciências. Tinha uma voz de italiano, grossa, mas clara, forte, com erre rolando à italiana. Era enérgico e ninguém marcava bobeira de brincar em suas aulas. Ao respeito também se juntava um tantinho de medo. Era - ou parecia ser- bravo. O Prof. Aníbal ainda seria meu professor no curso clássico e na Faculdade. Sempre competente em tudo. Ô italiano bom! E sempre com aquela disciplina enérgica. Aprendi muito, muito com ele.E apaixonava-me por tudo que ele ensinava. Ensinava-nos tão bem!

     Também iria reencontrar a Irmã Arminda na Faculdade. E ela alicerçou o conceito que eu fazia dela. Competente, inspirada, delicada, educada, maravilhosa, miraculosa.  Eu contarei depois.

     Economia Doméstica: era a disciplina em que aprendíamos a bordar, tecer e coisas que tais. Ah, todas tínhamos uma toalha pra bordar, já a recebíamos desenhada. a cores, para bordarmos com as respectivas linhas. Era meu tormento. Tanto no Desenho, como nessas prendas, eu sempre fui um desastre completo. Meu trabalho ficava sujo de tanto apagar o desenho e refazê-lo e os meus pontos nos bordados eram assimétricos, cada hora de um jeito. Um nojo, mesmo. Eu via os trabalhos das coleguinhas e quase preferia não ter nascido.

     Em geral, eu era muito calada. Mas, certa vez, na aula de História, Dona Ida recriminou uma amiga minha. E eu saí em sua defesa. Só que Dona Ida, cinicamente, me deu uma resposta, que levou a classe às gargalhadas e a berinjelice absoluta às minhas faces: sim, não fiquei vermelha, meu rosto arroxeou total.

     -- Sua amiga não precisa de advogada de defesa.

       Simples assim e a classe estourou de rir. E eu, de vergonha. Será que foi por causa disso que eu sempre sonhei estudar Direito?



                                   Luci



     Estávamos na 2ª série do Ginásio. Entre nós havia uma colega que se chamava Luci. Nunca cheguei a trocar nenhuma palavra com ela. Era de pele alva, cabelos bem negros, curtos, disciplinados, pelo que me lembro. Era das quietinhas. Sentava-se paralela a mim. No meio do ano correu um boato de que ela iria se casar, pois estava grávida. As feições dela não deixavam entrever nenhum drama mais sério em sua vida. Era serena, plácida, tranquila. O boato alvoroçou a imaginação de todas. No final do ano, ela já abandonara os estudos. Nunca mais soubemos dela.



                        Sonata ao Luar



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        Depois de solenidades ou festas, os alunos eram convidados a auxiliar na faxina na escola. Numa dessas ocasiões, eu ainda usava o vestido mais lindo que tive na vida: era de um azul celeste, fino, com um modelo de sonhos de amor. Irmã Hortênsia , ao me ver, elogiou-me: 
       -- Como você fica linda de azul!
       Pronto! Azul se tornou minha cor favorita.    
      A irmã Hortênsia passou de professora do primário a professora de francês. Ensinou-nos a pronúncia das palavras em francês. Como eu continuava em alta com ela, esmerei-me e ganhei elogios que me incentivaram ainda mais a estudar. Quando a Irmã Hortênsia dava aulas de francês em outras primeiras séries do antigo ginásio, mandava-me chamar, para eu ler o texto, que ninguém daquela classe tinha lido com correção. Por diversas vezes, saí de minha sala de aula para este delicioso ufanar de ego. Hum... não é que escolhi, mais tarde, Letras Neolatinas, no Curso Superior?

     Havia, todo ano, epidemia de piolhos na escola. Irmã Hortência sempre se preocupava comigo, porque meus cabelos crespos eram armados e voluntariosos.

     Quando cursei minha segunda licenciatura, Pedagogia,voltei a encontrar minha benfeitora, aquela que, desde o começo, acreditou em mim e me incentivou nos estudos. Pena que havia adotado um outro nome, do qual não me recordo. Mas lembrou-se de mim e dos cuidados que tinha pra que minha cabeça não fosse moradia daqueles bichinhos nojentos. Eu não cheguei a falar-lhe quanto ela significara em minha vida, Mas falo agora. Despertou em mim o amor pelos estudos, pela língua francesa. Mostrou-me que eu não era a aberração que julgava, depois da Crudela. Comecei a acreditar em mim, porque, em tudo que eu fazia , sentia os olhos confiantes desta  jovem religiosa, professora, sobre mim. Muito querida, para sempre. linda como a Sonata ao Luar.


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