quinta-feira, 19 de março de 2015

60 - - Que começo de lua de mel!





60-  Que começo de lua de mel! Selfie em 1977



       Ás cinco horas da tarde, já  em casa, prontos pra viagem de lua de mel. meus pais e meus tios queridos, Adib e Olívia, conversavam conosco na sala e alguns outros convidados da família, além dos familiares do Osvaldo. A família Nemendes ali. A festa não tinha fim.
       Ganháramos muitos presentes. Não era o que Osvaldo pretendia. Ele queria mesmo comprar tudo do nosso gosto. Mas, afinal, depois nunca o vi reclamar de nada que tivéssemos ganhado.
Estava tão gostoso o encontro, que Osvaldo e eu ficamos ali também batendo papo, até que nossos olhos se encontraram, demoradamente. Despedimo-nos de todos, já sentindo um aperto no coração. Meus pais já estavam idosos, fisicamente delicados, frágeis no corpo e sensíveis na alma. Afinal eu é quem vivia com eles. E nunca me distanciara de casa, a não ser naquela época em que lecionara em Marília. Ah, como pode o coração se dividir entre alegrias e preocupações? Entre certezas e medos? De um lado, minha alma cantava de felicidade. Amava e era amada.  De outro, sentia a solidãoi em que ficariam meus velhos. Doloroso é viver. Nem na melhor hora da vida podemos nos livrar do sofrimento. Enxuguei as lágrimas de antecipada saudade e, de mãos dadas com meu marido, saí daquela casa tão abençoada, onde vivi, desde a infância. Cussi Júnior 11-40! Bendita seja sua lembrança e que viva para sempre nos corações que  seu teto abrigou.
       
      Nosso carro, um Alfa Romeu, bordô, já estava prontinho, isto é, com latas amarradas e a barulheira típica. Seguimos pela avenida, a caminho de São Paulo. O Fred nos acompanhava de moto. Até que, com um sinal, se despediu e começamos Osvaldo e eu nossa vida em comum. 
      

      Num dado trecho do começo da estrada Castelo Branco, bem na frente de uma fábrica de papel, Osvaldo parou o carro no acostamento, apertou play no toca fitas e O Que Será, com Milton e Chico, jorrou forte no carro, inundando meu coração de emoção.
      Um beijo apaixonado selou nosso momento. Daí em diante, trocaríamos um beijo, sempre que passássemos por esse lugar. E seriam infinitas vezes, pois era esse o caminho pra chegar a Bauru, nós, que moraríamos a princípio em Jacareí e, depois, em São Paulo.
       Lembro-me sempre da estrada, naquele dia, naquela hora. Setembro faz a natureza tão bela! Um frescor, sol ameno, Campos verdes, fim de tarde. Parecia um sonho, tanta coisa linda a nossa frente. Trocando ideias, comentários sobre nossa festa despretensiosa e  feliz.
      Seguimos viagem. Chegamos ao Hotel El Dourado, na Avenida São Luís, às dez horas da noite, mais ou menos. 
       O apartamento era muito bonito e aconchegante, e, diante de um espelho, com champagne nas taças, Osvaldo bateu, em 1977, uma selfie. Ficou linda! Osvaldo, sempre antecipando tendências.
 (Foi dele que você, Karen, herdou essa característica).

        Não é que meu relógio parou, o do Osvaldo ficara na casa dele, que ele nunca foi de usar relógios, e nós, acordando tarde, comendo bolo que minha mãe nos fizera levar, conversando amorosamente, nem vimos o tempo passar. 
       Osvaldo ligou para o aeroporto, pra ver se o avião estava no horário. E perguntou que horas eram. Oh. Eram quase dez horas e nosso voo partiria às onze. Estávamos atrasadíssimos. Só aí percebemos que o relógio estava parado. Foi um tal de correr, e, em pouco tempo, já estávamos no aeroporto. Lá, passando por uma farmácia, falei pro Osvaldo que iria comprar um analgésico. mas era uma mentirinha. O que eu queria era Dramin, pois nunca viajara de avião e morreria de vergonha se vomitasse na frente do meu lindo e elegante marido. Era preciso fingir que as viagens aéreas não me metiam medo. Não mesmo, o que me dava medo era apresentar um espetáculo vomitando. 
       Frente à balconista, pedi dois dramins. E tomei os dois. 
       Aiaiaiaiai! preciso falar que fiquei semiviva?  Não podia ver o ombro largo e forte do Osvaldo, sem cair sobre ele, dormindo. Três horas e meia no avião, desse jeito. Osvaldo pensava: 
       -- Mas que coisa! Ela sempre foi tão saudável! Ficar doente logo agora!
       E eu nem conseguia pensar nada a não ser na delícia de ombro que sustinha minha cabeça.
      Acho que teria sido melhor vomitar,  do que tomar Dramin e ficar feito maria-mole.
      Enfim, Buenos Aires. Primeira noite no majestoso Plaza Hotel, todo dourado, com uma cesta de frutas nos recepcionando e um champagne. Desabei, que o efeito da droga não passava.
      

      Acordei e já estava no meu normal, sem resquícios da dopagem. Nos corredores, estava havendo uma reforma. O Osvaldo é alérgico à poeira, e era atchim mais aquela sensação de microbichinhos nas mãos e no nariz. Sem nenhum pesar, mudamos de hotel e fomos pra outro El Dorado, pertinho da Florida. Foi tão bom quanto o anterior. 
      Num passeio a essa rua já famosa pelo comércio, compramos casacos de couro. O meu, branco, lindo, tenho até hoje. (Talvez que, agora, tenha que ficar um pouco sem respirar para abotoá-lo)
      Fiquei maravilhada com a quantidade de bancas de revistas e de livrarias que havia na cidade. Em compensação, pouquíssimas farmácias. No Brasil é o contrário. Mau sinal!
      Passamos uns quatro dias em Buenos Aires e, depois, seguimos viagem pra Bariloche. No Hotel Interlaken, esplêndido na época, ficamos por uma semana. Um frio inenarrável. Fizemos todos os passeios: Cerro Campanário, Circuito Chico, Cerro catedral, Bosque de Arrayanes,, Parque Nacional Nahuel Huapi.
        
       Na sala da suíte em que ficamos, fiquei, uma noite, sozinha, (Osvaldo já dormira) a pensar nos meus velhos pais. Eles dependiam tanto de mim, não financeiramente, mas no dia a dia, na comunhão de sentimentos, no amor e respeito que nos ligavam. Meu pensamento voou pra sala onde eles assistiam aos programas de TV. Imaginei-os conversando e sozinhos. Que estrangulamento no peito! E chorei.
       Voltamos a Buenos Aires e, à noite, fomos às casas de tango. Como bons brasileiros, amamos o tango .
       No mesmo hotel El Dorado, tínhamos um variado  café da manhã, em que conheci os cornijos, ou croissants, pãezinhos de massa folheada. Uma delícia que me fez sentir, pela primeira vez na vida, o que era azia.Nossa! Que comida saudável tinha eu em casa, que nunca sofrera desse mal.
       E, a cada almoço,em restaurantes famosos, tomávamos uma garrafa de vinho, inteira. Saíamos rindo e o Osvaldo brincava:
       -- Está ventando forte!
       Só andávamos. Nunca pedíamos táxi. Delícia de momentos inesquecíveis, de passeios, cheios de luz e do brilho do amor.
      Presumo que fazíamos um casal interessante, em todo o lugar em que estávamos, havia gente que ficava nos olhando de um modo admirado. Eu, sempre de saltos altos, na época, com boas roupas, e o Osvaldo, aquele tipo lindo...  Ou então nos achavam com cara de amor. É bem por aí.
       Num dia, fomos fazer um passeio no Tigre, de lancha, e o Osvaldo pilotou, durante algum tempo a embarcação. Fotos, risos, felicidade.  Lua de mel de verdade.
      Todos os dias, palmilhávamos a Florida, que, bem naquela época, começava a atrair  os turistas com seu bom comércio..
       Num desses passeios, paramos frente a uma casa de câmbio. Osvaldo fizera pra mim uma tabela de conversão de nosso dinheiro para pesos: ele tinha muita facilidade com números e obviamente não precisava desse recurso. Frente à casa de câmbio, Osvaldo viu as cotações numa lousa pequena, apoiada num tripé,e percebeu, de imediato, que estavam equivocadas. Avisou o funcionário que nosso dinheiro estava com a cotação errada em relação ao peso. Pra eles seria  prejuízo.  Ele não quis acreditar. Então meu marido desafiou-o:
       __ Então troque esse meu dinheiro por pesos, de acordo com sua tabela.
       Desnecessário dizer que aí o funcionário acordou. Hahahá! Rimos muito. E eu fiquei toda orgulhosa do meu marido. Cálculos de cabeça! Um dos muitos motivos de admiração por ele.

      No fim de semana, fomos a Montevidéu. A linda cidade fora devastada por um temporal,ou ciclone, qualquer coisa de horrível. Tudo cinzento e melancólico. Águas turvas, céu escuro, e nós sempre com a mesma roupa, pois não imagináramos encontrar frio pela frente. Dá pra reconhecer, nas fotos que tiramos, o país em que estávamos, pela roupa que usávamos. Dois dias com as mesmas caras!  Isso porque leváramos roupas de verão e encontráramos um frio impiedoso.
       Osvaldo queria me levar à Foz do Iguaçu, antes de voltarmos ao Brasil. Mas meu coração doía de pensar que meus amados velhinhos estavam sozinhos. E tão longe de nós. Resultado: voltamos pra São Paulo e daí direto pra Bauru! 
       

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