sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

30 - Toninho Sapateiro

Vizinhança da Cussi Júnior, 11-40, anos 40


O Príncipe das Crianças, 

30 - TONINHO SAPATEIRO
     ( www.clicfolha.com.br/noticia/52694/os-sapateiros-e-sua-linguagem11 de dez de 2015 - Sapataria era lugar de prosas e falações; forma de passar o tempo, enquanto as sovelas cortavam os couros e os martelos batiam )


                                       Toninho Sapateiro

     É assim mesmo. Como se fosse seu sobrenome. Ao invés de Toninho Alves, ou Silva, Toninho Sapateiro.

     Havia uma sapataria vizinha à nossa casa. Funcionava na garagem da casa do Sr. Sebastião. O sapateiro chamava-se Toninho, era moço e as crianças dedicavam-lhe muito afeto e confiança. Eu, eu mesma, muitas vezes, ficava sentadinha, num tamborete, a sua frente, observando-o em seu mister. Batendo solas, trocando saltos, engraxando, tirando pregos. (Sim, às vezes, a sola se desprendia e um prego ficava a atenazar o pé.)
      Quando eu ia à sapataria- note-se: eu era um bichinho tímido e desconfiado, mas tinha coragem de sair sozinha de casa e ficar bons minutos ao lado de Toninho, tal a bondade que ele demonstrava às crianças - toda vez que me dirigia pra lá, corria até à lata de bolachas, enchia as mãos delas e levava-as ao meu amigo sapateiro. Não me lembro de lhe ter falado alguma coisa, mas, seguramente, enquanto trabalhava, ele  ouvia o relato da criançada ao seu redor (sempre havia, pelo menos, três crianças ali) e aparteava, com voz risonha, doce e calma, num tom baixo, humilde como sua profissão. 
     Nunca o vimos triste, nem nervoso. Sempre um sorrisinho nos lábios.  Sempre amigo, sempre o Toninho Sapateiro, amigo das crianças. Também nunca o vimos longe de sua banqueta de oficina. Às vezes, quando terminava um trabalho, levantava-se- era alto e esguio – e, imediatamente, já pegava, nas prateleiras, no alto das paredes, outro calçado para consertar. Linda figura!
      Certa feita, havia pedreiros fazendo uma pequena reforma na oficina. Eu morria de dó dos pedreiros mal vestidos e sujos de tinta. E minhas mãos iam mais carregadas de bolachas que nunca. Eles me olhavam, com surpresa, mas comiam as bolachas Maria ou Maisena, que eram as prediletas em minha casa.Meu pai as comprava em latas grandes. 
     Quando terminava o contrato do aluguel da garagem, as crianças torciam pra que o  Sr. Sebastião o renovasse  só com o Toninho Sapateiro. E assim se passaram alguns anos.

     Num dia estranho, a sapataria amanheceu fechada. A filha do Sr. Sebastião, Nini, contou-nos, quase em cochichos, que Toninho se suicidara. 
     Até hoje, sinto um aperto no coração, ao lembrar-me dele. O que poderia ter acontecido a ele, que era calmo, bem humorado, para chegar a este gesto extremo? O que lhe faltou, a ele, que tanto nos dava de bem-estar e tranquilidade? Por que ninguém nunca mais tocou no nome dele? Por que  ninguém explicou este desenlace imprevisto e impensável? Como se ele fosse uma bolha de sabão que sumisse no ar. Quero saber, quero saber quem magoou tanto este moço tão bom, de coração criança. Como foi que os adultos  o feriram tão gravemente e o apagaram da memória, tão rápida e fulminantemente.

     Toninho, eu não o esqueci, e muitos, entre nós, crianças, também devem tê-lo guardado na memória. Você ficou em minha vida como um exemplo. Confiava em você e você nunca me decepcionou, nem a nenhum de nós, seus amigos mirins. Talvez venha de você este meu jeito de confiar sempre nos outros. Aprendi com você, meu primeiro amigo adulto. Você nos recebia em sua sapataria como se fôssemos seus sócios. Nunca repreendeu nenhum que ali estivesse. E ninguém, diga-se de passagem, extrapolava nas brincadeiras. Com você, deixava minha timidez de lado, abandonava a idéia de mim mesma como uma garotinha tímida e introvertida, corria à sua oficina, aboletava-me em uma banqueta e ficava apreciando o espetáculo de seu trabalho  paciente e belo, olhando seu rosto jovem, comprido e fino, em meio-sorriso, centrado em um calçado. Deus lhe faça justiça e lhe reserve um local nobre, como sua alma, rodeado do afeto, que lhe transbordava nos olhos, nos gestos, na voz.

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