quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

31 -- Primeiros anos em Bauru



31- MEUS PRIMEIROS ANOS EM BAURU




     Eu era cheia de fantasias. Na sala de visitas da época, ( mais tarde esta sala tornou-se a minha Sala de Música) havia aqueles sofás macios, com poltronas e cadeiras grandes e confortáveis, de estofados aveludados e maravilhosos, de um tom azul quase cinza.      
     Na mesinha do centro, havia umas bolas de cristal, com figuras abstratas  dentro, que se mexiam, quando as tocávamos. Naquela sala, com aquelas bolas de cristal pesado, passei muitas horas divagando, vivendo histórias imaginárias, cheias de encantamento. Horas e horas ficava ali, sonhando, imaginando, infelizmente esqueci-me o quê.  Eram objetos fascinantes, assim como vasinhos de porcelana chinesa, ou japonesa, com delicados filetes dourados, em desenhos clássicos orientais, sugestivos à minha divagação.

     Todos almoçávamos juntos, no horário. Minha mãe exigia cabelos penteados e mãos lavadas. Se alguém chegasse atrasado, ficava num canto, de castigo, enquanto todo o mundo se servia daqueles pratos que mamãe fazia inigualavelmente. Os mais assíduos no canto eram Nilce, Nassib, Nelson e Wilson, os campeões.

     Papai tinha fazenda, onde plantava café e criava bois. A época foi boa para o café e meu pai conseguiu fazer seu pé de meia, trabalhando arduamente na terra, sem horário definido. Ia de madrugada e voltava à tardezinha. Não se poupava. Ele mesmo fazia a contabilidade da Fazenda, com um grande livro em que registrava todos os colonos. Cada página revelava quem era o funcionário. Dia de admissão, vales, pagamentos etc. Alfredo tinha um processo pra indicar quando o colono nunca mais devesse ser readmitido: fazia um grande X sobre a página do funcionário. Esse sinal seria o lembrete de que o empregado tivera atuação negativa, principalmente no plano moral. Sálua adotou o mesmo sistema em sua agenda, onde registrava as domésticas.
     Na fazenda, havia máquinas de beneficiamento de café. E o café produzido pela Fazenda Matão era dos melhores. Era vendido diretamente para o escritório Carvalhaes (acho que era assim a grafia) em Santos, para exportação. Lembro-me muito bem que as agendas desse escritório eram enviadas a meu pai todos os anos. 
       http://www.agrolink.com.br/upload/agromaquinas/6582_4.jpg
(As máquinas de beneficiamento de cafe da Fazenda Matão eram muito parecidas com essas que achei no Google. Pena que não tínhamos, naqueles tempos, o espírito de registrar tudo em foto. Novos tempos com memórias garantidas.) 
           



       Graças a esta época, papai aumentou seu patrimônio. Comprou o sítio contíguo à fazenda, de nome Água Branca e o destinou aos filhos mais velhos, Labib e Nassib. Adquiriu um prédio excelente na Rua primeiro de Agosto. E mais: a Fonte Azul, em Conceição, com água mineral de altíssima qualidade. Adquiriu também mais casas em Piratininga. Comprou na planta dois apartamentos em São Paulo. destinados não para aluguel e, sim, para o desfrute da família.


 (A Fonte Azul, em Conceição, próxima a Bauru. Instalações no padrão das melhores águas minerais da época. Meu pai, de terno branco, à direita)

      Bons tempos! Não éramos ricos, mas todos nos achavam acima da média, em questões econômicas. Ninguém sabia como meu pai dava duro para conseguir o que tinha. E era zeloso com dinheiro. Não que fosse pão duro. Oh, não! Mas dinheiro se gastava no que fosse realmente necessário. Comida à vontade. Roupas pra festas, as melhores. Brinquedos? Aí é que a coisa pegava. Meus brinquedos eram pular corda, balanços, feitos por meu pai, uns brinquedos de meus irmãos, búricas e arame conduzindo uma roda, e, de quando em quando, brincadeiras de cozinhar puxa-puxa. Também jogar pião, bilboquê, ( nós dizíamos biblioquê, e, até hoje, tenho que buscar o dicionário pra saber a grafia correta) e ioiô Vamos dizer que eu me divertia bastante, mesmo sem bonecas. Bonecas? Não havia desse desperdício em casa. Nem luxos, nem compras que não fossem estritamente necessárias. Minha mãe dava conta ao meu pai de todos os gastos. Às vezes, até discutiam, porque o que mais doía em meu pai era a falta de dinheiro. Isto o deixava  muito nervoso. Nestes momentos, pensava que a culpa fosse dos gastos de casa. Mas nunca era assim. Minha mãe era tão ou mais econômica que ele. Supervisionavam o uso das luzes, o do telefone nos interurbanos. Naquela época os interurbanos eram caríssimos. Mas nunca recriminaram ninguém por banhos demorados. E nunca ouvi meu pai queixar-se dos gastos com nossas escolas. 
     Todos nós estudávamos em escolas particulares. As meninas ainda tinham o Conservatório. As cinco filhas de Alfredo e Sálua estudaram piano. Alice estudou canto, também. E acrescente-se que estudávamos nas melhores escolas da cidade: São José e Guedes de Azevedo. As mais conceituadas.E as mais caras, partindo-se do princípio de que, se é mais caro, tem mais qualidade.

     Neste lar abençoado, sempre houve muita fartura. Da fazenda vinham frutas, de sobejo, em caixas: mamão, laranja-lima, mexerica, laranja-baiana, limão, abacate, tangerina, laranja-pera, abacaxi: e verduras, principalmente alface, legumes: chuchu, cenoura, abóbora.  Algumas vezes, plantaram alho, cebola, algodão.  Ah, e havia a cana, para os animais e para a criançada chupar deliciada. Sempre havia milho brotando, crescendo, ou na época de colheita,  suas hastes longas e verdes, os pés de milho desafiavam soberanamente quem competisse com sua beleza e elegância. E, em grandes caldeirões de alumínio, minha mãe cozinhava uma quantidade enorme de espigas, limpas e perfeitas, amarelas e tenras, para comer à tardezinha, ou à noite. 
     Da fazenda vinham frangos, galinhas e porcos. Já limpos. Quando meu pai chegava com o porco, no sábado, à tarde, para tirarmos a gordura, prepararmos os pernis, era um pouco decepcionante. Bem no sábado! Minha mãe esquecia-se do cansaço da semana e, no balcão da pia da cozinha, comandava o trabalho, com as auxiliares, Nilce, Norma e Sônia. (Renée e Alice já eram casadas.) Depois de retirada a gordura do couro, nós a cortávamos em pequenos cubos, que eram levados para o fogão caipira, em tachos.  Depois desta (puta) labuta,(perdão: mas não foi possível evitar a rima) que cumpríamos, conversando e rindo, a gordura resultante era colocada em latas grandes ( de óleo, 5 ou 10 litros). Com o passar dos dias, ficava a coisa mais branca e linda que se pudesse imaginar. 
     Com esta gordura e, com manteiga derretida, acondicionada em grandes vidros, manteiga  batida por nós, surgindo dourada da nata branca, é que fomos criados. Ninguém poderá dizer que estas coisas me fizeram mal. Tenho uma saúde invejável até hoje. E, quando pequenos, nenhum dos filhos do casal Neme teve desmaios, fraquezas, moleza, palidez, tosses incuráveis, que eram frequentes em grande parte de nossos colegas de escola. Éramos fortes, crescemos fortes. A idade e os problemas da própria vida é que fizeram alguns entre nós, dos nove, mais vulneráveis às doenças, na idade avançada.

     Outra coisa que minha mãe fazia em tachos era doce de abóbora. Hum! Eu gostava muito!

     Os quitutes preferidos em casa eram quibe e esfiha. Com todos os acompanhamentos tradicionais: cebolas, carne moída refogada e temperada, nunca esquecendo o limão, cebolinha, hortelã e... aquela poderosa e deliciosa manteiga. Só com  esta maravilha láctea, o quibe não precisava de mais nada. Doces árabes eram mahmul, feito em assadeiras grandes, cada quadradinho com uma amêndoa descascada por cima, e, ainda uma calda para completar. Bolachinhas de gergelim (essas ajudei minha mãe a fazê-las muitas vezes) eram acondicionadas em grandes vidros herméticos. Assim que saíam do forno, direto às bocas gulosas e ansiosas. Doce predileto de meu pai era malabie (manjar branco).
       
 (Foto do Arábia, blog)  Só tenho a reclamar que nos tempos antigos uma colher de flor de laranjeira era perfume e sabor puros e hoje... nem cheira, quase nem dá sabor)      
      Durante a semana, meus pais adotaram plenamente o cardápio brasileiro: arroz, feijão, bife, salada, batata, ovo frito. Isto não enjoava, como as comidas árabes ou italianas. Macarronada com frango, ou à bolonhesa, era oficial aos domingos, mesmo se houvesse quibe ou esfiha. Sempre, no sábado, havia um frango temperado na geladeira para ser assado ou ensopado, ou frito no domingo. Sálua sabia fritar o frango como nunca soube que alguém fizesse. Ficava crocante e bem frito, macio e temperado na exatidão.

     Quando era muito pequena, mal ajudava minha mãe e minhas irmãs. Mas colher manjerona no canteiro isto eu sabia fazer. Nem assim deixava minha fantasia de lado. Com a tesoura, cortava os galhinhos verdes e cheirosos de manjerona e de hortelã, cantando musiquinhas da época: A mente longe, longe... “ Quem será que vai gostar de mim....” Era rumba esta música? Ou mambo? Sei que pegava na cabeça e no coração.

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