ANOS 40/50
( A casa, a morada da felicidade por muitos anos, depois de reformada. Por que continuamos a nos referir a ela como " em casa", como se ainda morássemos lá? Labirintos do coração.)
27- Vizinhança da Cussi Júnior,11-40, anos 40 e 50
Os Filhos de Dona Lídia
Eram nossos vizinhos e um pouco mais velhos que Norma e eu. A casa deles era contígua à nossa, também, lógico, do lado par da rua. Eram três filhos de Dona Lídia e cada um mais bonito e educado
que o outro. Infelizmente logo se mudaram. Sniff, meninas sonhadoras!
Micisa, a Bela
Morava na esquina com a rua Gustavo Maciel, sempre com o
quarteirão 11 da Cussi Júnior. Seu nome era Maria Luísa. Era muito, muito
linda. Estatura mediana, olhos e cabelos castanho-claros, parecia um tipo
comum, não fosse a delicadeza das
feições, a intensidade do olhar, a maciez da voz. Seu irmão era amigo do Labib. Chamava-se Homero Mário, até hoje um
nome um pouco raro.
Micisa era da idade
da Norma e mais amiga dela que minha. Mas, à noite, todas brincávamos juntas,
as meninas: Norma, Micisa, Catucha e eu. Meninos: os filhos da Dona Lídia, Nelson e Wilson. Brincávamos de pique, principalmente, batendo com o anel de chapinha (todas as meninas tinham um no dedo anular) no poste, para vencer
o perseguidor. Aquele som ecoava na noite, uma delícia provocá-lo. Voltávamos
pra casa, suados e felizes. Era uma correria só.
Outra brincadeira comum era a do teatro. Todos participavam. E, no dia de teatro, havia até ingressos. O palco ficava na garagem de minha casa, com cortinas e tudo o mais que pudesse dar aquele clima de encantamento, o fascínio de um teatro, que nem conhecíamos, mas adivinhávamos pelos filmes a que assistíamos nos cines da cidade.
Outra brincadeira comum era a do teatro. Todos participavam. E, no dia de teatro, havia até ingressos. O palco ficava na garagem de minha casa, com cortinas e tudo o mais que pudesse dar aquele clima de encantamento, o fascínio de um teatro, que nem conhecíamos, mas adivinhávamos pelos filmes a que assistíamos nos cines da cidade.
Micisa e Norma sempre eram as protagonistas das peças. A
única vez em que fui a mocinha da história, a peça teve arrecadação zero. Ô
zebra! Mas com Norma e Micisa a bilheteria ia a toda.
Micisa além de bela era interessante. Tinha o encanto das
mulheres-deusas. Não admira que, quando moça, tenha fascinado um médico baiano,
que trabalhava em Bauru e com quem se casou. Confesso: entre nós todas, ela e a Norma é
que irradiavam o mistério, a delicadeza e a beleza de uma mulher. Cheias de
charme.
Lembro-me de Micisa, num dos bailes do Tênis, numa roda, ( talvez fosse carnaval ) dardejando um olhar transbordante de feitiços, para seu então namorado médico. Meu caro, resistir quem havia de? Só faltou o jovem médico derreter-se com aquele mel de códigos cifrados. Capitulou incontinente.
Lembro-me de Micisa, num dos bailes do Tênis, numa roda, ( talvez fosse carnaval ) dardejando um olhar transbordante de feitiços, para seu então namorado médico. Meu caro, resistir quem havia de? Só faltou o jovem médico derreter-se com aquele mel de códigos cifrados. Capitulou incontinente.
Sobrado Sinistro
Lembro-me, como num sonho, ter tido uma amiga que morava num
sobrado, do lado de baixo da rua, número ímpar, parecendo um castelo. Não
consigo nem sequer rever na memória o rosto desta minha amiga que me chamava frequentemente
para brincar em seu quintal enorme, sombreado por muitas árvores. Morou pouco
tempo ali.
Só depois que ela se mudou é que notei como o sobrado era
sinistro. Um grande cipreste lançava, à
noite, sombras assustadoras sobre uma vidraça alta, atrás da qual se via, nebulosamente,
pela opacidade dos vidros, uma escada
hitchcockiana entre o térreo e o andar de cima. Mas eram imaginações de
mentes como a minha, afeita a leituras de romances policiais. Quem viveu lá, depois de minha amiga sem rosto e sem nome,
nada tinha de tenebroso, foi Dona Valdir, que encantou a mim e a Norma. Uma
mulher carismática, simpática, envolvente. Tão adorável que foi a nossa escolhida como madrinha de crisma, minha e da Norma. Também não ficou muito tempo ali
e mudou-se, não sei se de cidade ou só de endereço em Bauru. Uma pena!
Os próximos a escolherem o sobradão foi um casal jovem.
Gente bonita, mesmo. Eu já era moça, a Norma ainda não encontrara o Said.
O
casal teve um filho e a atitude dela foi paranoica. Havia uma folha colada à
porta do quarto do bebê, com proibições, imposições e leis para as visitas. A gente já desconfiava que ela fosse sui generis. O marido era
advogado, simpático, normal. Não seguia o catecismo da esposa. Ainda bem! Mesmo
assim, mal entramos no quarto do pequenino, com medo de deixarmos germes e
bactérias por lá. Imagine a vingança da mamã contra nós, se algo semelhante
houvesse acontecido! E aquela escada!! Psicose!!!
Sr Sebastião, Dona Quinha e Nini
A casa do Sr. Sebastião era a mais próxima de casa. Tão
próxima que da sala dele dava pra ouvir todas as nossas conversas. Do quarto de
meus pais, da sala de música idem. Também, reciprocamente, ouvíamos tudo, até as tosses do Sr.
Sebastião, o barulho da descarga do seu banheiro...
As casas eram separadas por
um corredor comprido de uns oito metros, com largura de três a três metros e meio
se tanto, e por um muro de altura padrão.
Eram ótimos
vizinhos. O Sr. Sebastião era da moda antiga e
chamava-nos, a mim e a Norma, como Dona Norma, Dona Sônia. Nós tínhamos oito a dez anos. Era estranho, mas engraçado. Dona Quinha era como o nome
dela: velhinha, arcada, miudinha, magrinha, doce, doce. Nini era
aquela vizinha que todo o mundo tem ou gostaria de ter. Sempre solícita, sempre pronta prum bate-papo. Prestativa, cheia de dons,
solteira,
gostando de cuidar dos pais, dela mesma e ... da vida dos outros. Normal! Boa
pessoa, sim.
Bordava frivolité, uma renda que só
as muito prendadas sabiam fazer. Presenteou-nos com algumas toalhinhas e golas
feitas por ela.
Quando me tornei excelente aluna de piano, o Sr. Sebastião
era o mais entusiasta apreciador de minhas performances. Algumas vezes, não se
continha, tocava a campainha de casa e pedia licença pra ouvir-me na sala em que eu estudava.
Ele e Dona Quinha fizeram uma festa de sessenta anos de
casados. Foi numa fazenda dele e eu, durante a festa, conquistei um admirador,
um delegado. Enfim, eu estudava tanto que nem sabia como era namorar. Não que não acalentasse muitos sonhos de amor.
Afinal, estes
vizinhos eram extensão de minha família. A voz
grossa do Sr. Sebastião até hoje chega a meus ouvidos, pela gentileza e
educação com que sempre me tratou. E mais: por ser admirador da pianista
que eu era, e por nunca reclamar dos estudos, às vezes repetitivos e
sem melodia, que invadiam sua sala:
-- Dona Sônia, (e eu, com treze anos, se tanto) a música faz bem até aos
animais.
Que bom ter tido vizinhos tão compreensivos e amigos!
Nelly
Nelly veio morar na Cussi Júnior, depois que o Dr Demétrio e família se mudaram do lindo sobrado. Dr Demétrio era pai da Catucha, que merece um post especial.
Nelly se casara com um homem muito mais velho. Era ela um pouco mais velha que nós. Acho que Norma e eu pegamos a doença do Sr Sebastião e passamos, desde aqueles tempos, a chamá-la de Dona Nelly. Ou vai ver que, por julgarmos seu marido velho, teríamos também que considerá-la assim e tratá-la com respeito e solenidade. Ah, nem entendo como isso aconteceu.
De todas as vizinhas, era Nelly a que considerávamos da família. Foi a melhor amiga de Sálua. Era outra filha pra minha mãe. Uma filha alegre, que lhe confidenciava tudo. Seu dia a dia, seus temores, suas alegrias, suas paixões. Uma voz forte, cheia de vida e de energia. Não se preocupava com horários. Ficava conversando longas horas com minha mãe, em 90% das vezes, só com boas notícias, coisas engraçadas que as faziam rir e se comungarem num amor sem explicação. Nelly é falante e Sálua discreta. O diálogo ideal. Nelly chegava a nossa casa logo depois do almoço e só voltava pra sua casa quando Alfredo chegava da fazenda, ou às quatro horas, ou às seis, conforme a jornada lhe fora imposta por Deus. Nelly dizia:
-- Dona Sálua, Já estou indo. Sei que quer cuidar do Seu Alfredo. Até amanhã.
Com beijinhos na face e um delicioso sorriso nos lábios, cumprimentava meu pai e ia-se para seu lar.
Amo Nelly pelo que representou à vida de minha mãe. Uma amiga sincera, uma filha que a vida lhe apresentou.
Dona Lourdes
Energia, profissionalismo, amizade, delicadeza, simplicidade, falar mais o quê? Idem Sr José, seu marido. Pais de quatro garotos incríveis e adoráveis. (Escrevo garotos, mas hoje são médicos, engenheiros, dentistas, promotores)
Frequentemente Dona Lourdes, que morava na casa bem defronte à nossa, conversava com Sálua, de varanda a varanda. Eram todos os assuntos, principalmente o de plantas, que as duas adoravam e das quais cuidavam com todo o desvelo.
Dona Lourdes é um afago cálido na memória.
Quando Alfredo e Sálua já tinham deixado esse mundo, Dona Lourdes, que era espiritualista, nos confidenciou que à noite viu os dois conversando, sentados nas cadeiras da varanda, como sempre haviam feito. Acredito. E acredito, que embora a linda e acolhedora casa tenha sido demolida, deve continuar a existir em outro plano, para eles, para Dona Lourdes e para nós também.
Nelly
Nelly veio morar na Cussi Júnior, depois que o Dr Demétrio e família se mudaram do lindo sobrado. Dr Demétrio era pai da Catucha, que merece um post especial.
Nelly se casara com um homem muito mais velho. Era ela um pouco mais velha que nós. Acho que Norma e eu pegamos a doença do Sr Sebastião e passamos, desde aqueles tempos, a chamá-la de Dona Nelly. Ou vai ver que, por julgarmos seu marido velho, teríamos também que considerá-la assim e tratá-la com respeito e solenidade. Ah, nem entendo como isso aconteceu.
De todas as vizinhas, era Nelly a que considerávamos da família. Foi a melhor amiga de Sálua. Era outra filha pra minha mãe. Uma filha alegre, que lhe confidenciava tudo. Seu dia a dia, seus temores, suas alegrias, suas paixões. Uma voz forte, cheia de vida e de energia. Não se preocupava com horários. Ficava conversando longas horas com minha mãe, em 90% das vezes, só com boas notícias, coisas engraçadas que as faziam rir e se comungarem num amor sem explicação. Nelly é falante e Sálua discreta. O diálogo ideal. Nelly chegava a nossa casa logo depois do almoço e só voltava pra sua casa quando Alfredo chegava da fazenda, ou às quatro horas, ou às seis, conforme a jornada lhe fora imposta por Deus. Nelly dizia:
-- Dona Sálua, Já estou indo. Sei que quer cuidar do Seu Alfredo. Até amanhã.
Com beijinhos na face e um delicioso sorriso nos lábios, cumprimentava meu pai e ia-se para seu lar.
Amo Nelly pelo que representou à vida de minha mãe. Uma amiga sincera, uma filha que a vida lhe apresentou.
Dona Lourdes
Energia, profissionalismo, amizade, delicadeza, simplicidade, falar mais o quê? Idem Sr José, seu marido. Pais de quatro garotos incríveis e adoráveis. (Escrevo garotos, mas hoje são médicos, engenheiros, dentistas, promotores)
Frequentemente Dona Lourdes, que morava na casa bem defronte à nossa, conversava com Sálua, de varanda a varanda. Eram todos os assuntos, principalmente o de plantas, que as duas adoravam e das quais cuidavam com todo o desvelo.
Dona Lourdes é um afago cálido na memória.
Quando Alfredo e Sálua já tinham deixado esse mundo, Dona Lourdes, que era espiritualista, nos confidenciou que à noite viu os dois conversando, sentados nas cadeiras da varanda, como sempre haviam feito. Acredito. E acredito, que embora a linda e acolhedora casa tenha sido demolida, deve continuar a existir em outro plano, para eles, para Dona Lourdes e para nós também.

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