24 - EU, EU MESMA
Nasci em Piratininga, como todos os meus oito irmãos mais velhos. Uma ingratidão pra minha terra natal: pouco me lembro dela Mas alguns fatos emergem à memória e trazem bons motivos de riso ou de emoção.
Sei muita coisa de mim que não vive em minha memória
e, sim, na de minha mãe, que, antes de deixar-nos, para sempre, me contou
várias vezes, que eu nasci num Domingo de
Ramos, às três horas da tarde. Da janela de seu quarto, que ficava no andar de
cima do sobrado, deitada na cama, aguardando a hora agá de minha chegada,
via os verdes ramos subindo a rua, em direção à igreja.
Minha vinda, assim me
contou minha querida irmã Alice, não fora desejada. Tanto a surpresa de minha futura chegada foi
funesta, que minha mãe chegou a procurar alguém que pudesse provocar a
interrupção da gravidez. Se eu me sinto
mal com esta notícia? Oh, não! Compreendo perfeitamente os sentimentos que
despertei. Como sou do tipo simplório, isto é, não encuco facilmente. Afinal minha mãe nem bem tivera a Norma, quando engravidou pela nona vez. E lembrando que, durante a gestação anterior, vivera uma tragédia, com a morte precoce do tio Sêmi, seu irmão. Ficara
terrivelmente abalada, porque meu tio era irmão e pai, ao mesmo tempo. Ao Sêmi
dedicava um amor profundo, concentrado. Era ele o representante único daquele lar de Marjeyoun. Sua morte a deixara numa prostração e revolta. A duras penas, conseguira lembrar-se de que Norma estava a caminho e que precisaria de mãe saudável e carinhosa. Quando Norma chegou, foi um alívio. Era perfeita, além de linda! Por tudo que passara, pensava que Norma seria a caçula. Eis que engravida novamente. Já tinha
oito filhos para cuidar. Honestamente: pra que mais um? Já cumprira com muitos juros a determinação divina de crescer e multiplicar-se. Compreendo, mesmo, que minha mãe não desejasse mais um filho. Não
tenho grilo nenhum sobre isso.
Alice me contou mais passagens picantes. A parteira, designada para este piedoso mister, se enchera de medo de meu pai e:
-- Cruz credo, Dona Sálua! Se acontecer alguma coisa com a senhora, o Seu Alfredo me mata!
E, assim, foi decretado que eu viria ao mundo.
Já deu pra sentir o quanto meu pai amava minha mãe. Isso é realmente maravilhoso!
Os meses se passaram e chegou a hora.
Enquanto minha mãe já sentia as dores do parto, pela nona vez, num domingo santificado, deitada em sua cama. vendo os ramos verdes passarem pela janela, levados pelos católicos à igreja, eu me preparava, sob os cuidados da parteira, para conhecer este mundo de Deus.
Alice me contou mais passagens picantes. A parteira, designada para este piedoso mister, se enchera de medo de meu pai e:
-- Cruz credo, Dona Sálua! Se acontecer alguma coisa com a senhora, o Seu Alfredo me mata!
E, assim, foi decretado que eu viria ao mundo.
Já deu pra sentir o quanto meu pai amava minha mãe. Isso é realmente maravilhoso!
Os meses se passaram e chegou a hora.
Enquanto minha mãe já sentia as dores do parto, pela nona vez, num domingo santificado, deitada em sua cama. vendo os ramos verdes passarem pela janela, levados pelos católicos à igreja, eu me preparava, sob os cuidados da parteira, para conhecer este mundo de Deus.
Na sala ao lado, o amoroso esposo sentia
as emoções de sempre. Ansiedade, preocupação. O fato de ser o nono bebê não
conferia nenhuma calma ao experiente pai. Sentia nervosismo pelo medo de que
algo adviesse. De tantas coisas trágicas ocorridas na cidade e nos arredores ele
tinha conhecimento! Sentia impotência por não poder ajudar Sálua nesta hora,
como nas horas do dia a dia em que ele sempre a protegia. Tinha que superar o
medo, a dor, a vontade de chorar. Rezar. Era preciso rezar, pelo bebê e pela
amada Sálua. Seu Anjo da Guarda velaria por todos. As crianças até que estavam
colaborando. Fahda sempre ao lado dos gêmeos. Norma se aninhava nos braços de Renée.
Nilce, pronta a ajudar no que fosse necessário. Sempre esperta e objetiva.
Afinal, eis a vida, eis o mundo! Era a
quinta menina, o nono filho do casal amoroso.
Sônia, o nome foi sugerido por Rosete, irmã de Sálua, que passara uns tempos em
Piratininga, vinda de Rio Cuarto, Argentina, onde morava. Na entrada do outono,
nasci. Eram três horas da tarde de um ensolarado Domingo de Ramos.
ACORDES DE PIRATININGA
Há algumas cenas que me remetem a Piratininga:
A primeira, nós, numa noite de verão, sentados na calçada,
frente a nossa casa. Eu, ao lado do meu irmão protetor, Labib. Era noite
escura, iluminada pelos vagalumes. O Labib e seu amigo Íbi caçavam os
pirilampos e guardavam-nos em caixinhas de fósforos. Volta e meia, abriam,
cuidadosamente, a caixinha e o pirilampo iluminava-se e fazia brilhar nossos olhos.
Era um encantamento, aquela luzinha cintilando, toda azul, fora ou dentro da
caixinha. Se eles os libertavam depois? Nem quero saber a resposta. Quero
presumir que sim, lógico, jamais deixariam aquela luz se apagar.
A segunda coisa de minha terra natal de que me lembro é uma nebulosa cascata de
imagens. Meu tio Sad tinha um cão policial (hoje sei que era pastor alemão) feroz. Quando passávamos na rua, em
frente à sua casa, o cachorro já ficava completamente transtornado,
enraivecido e furioso. Eu morria de medo do animal. Certa feita, passei
por ali e o cão estava livre. Num raio, arrancou sobre mim e nhac! mordeu-me a perna, seus
dentes fincando-se em minha canela. Devo ter gritado muito, não me lembro do
resto. Sei que o tempo não curou as feias marcas que restaram do episódio. Por
incrível que possa parecer, nunca perguntei a minha mãe sobre as cicatrizes
que o ataque canino deixara. Tinha tanto terror dos fatos que preferia nunca tocar
nesse assunto.
Mas, muitos anos mais tarde, já casada e já com a Karen, descobri a verdade. Estou pasma ainda hoje. Não, não fora o terrível cão amedrontador que me mordera. Aquilo fora um sonho, tão real, que eu o aceitei como verdadeiro até à idade adulta. Eu fora picada por formigas poderosas. Pode? Um sonho ser tão forte que apagou uma lembrança, sobrelevando-se a ela na memória? Pois foi o que aconteceu comigo.
Mas, muitos anos mais tarde, já casada e já com a Karen, descobri a verdade. Estou pasma ainda hoje. Não, não fora o terrível cão amedrontador que me mordera. Aquilo fora um sonho, tão real, que eu o aceitei como verdadeiro até à idade adulta. Eu fora picada por formigas poderosas. Pode? Um sonho ser tão forte que apagou uma lembrança, sobrelevando-se a ela na memória? Pois foi o que aconteceu comigo.
E agora: a terceira lembrança
de minha terra natal:
Minha perna estava
com sério problema. O cão, policial, feroz... Já sabem a história toda. Fomos
ao consultório do médico de Piratininga, a primeira vez, e eu, com dois anos,
se tanto, mal podia entender a gravidade da infecção. O médico marcou nova visita
para depois de alguns dias.( Ah! que história mais triste!! Alguns anos depois dessa consulta, o médico sumiu de Piratininga, ao descobrir a traição da esposa e nunca mais
ninguém soube dele! A cidade ficou sem um excelente médico)
Neste dia aprazado da segunda consulta, a Nilce, chefe do bando, me pegou pela
mão, reuniu os demais irmãos, (Alice e Renée estudavam em São Paulo) Nelson,
Wilson, Norma, com certeza Labib e Nassib, deu as palavras de ordem, agarrou-me
pela mão e todos juntos fomos à garagem para esconder-nos, e, sob suas ordens, guardamos total silêncio. Ela, antes, com o dedo em
riste, me doutrinara: “ O Papai vem aqui e vai convidar você pra ir à fazenda.
Você diga NÂO! Porque ele não vai te
levar pra fazenda e, sim, pra tomar injeção NA PEEEEERRRNA!. Você entendeu???? Quando
ele perguntar,diga NÃO! “ Isso quase aos gritos, ela falando com aquele olhar
sério, dos grandes e lindos olhos castanhos! O cabelo liso caindo no rosto, a
expressão de extrema gravidade, todos ficamos paralisados e obedientes ao seu
comando. Passaram-se minutos que pareciam horas. Estava quase dormindo, nos
braços da nossa chefa, quando ouvi o chamado de meu pai: “Sônia, Sonhita...” A
voz vinha de dentro de casa, E nós lá na garagem, no maior silêncio. O chamado
se repetiu diversas vezes, e a voz passeava de um cômodo a outro da casa. Até
que ele veio à garagem. Deparou com o bando todo. O incrível é que ignorou
todos os meus irmãos, como se só eu existisse ou estivesse ali. Incrível a
psicologia que ele praticava. Nem uma admoestação para os insurrectos, nem
sequer uma explicação sobre a tal da injeção na perna. Nada! Só se importava em
me arrebanhar em seus braços e levar-me consigo. Não deu outra. Infelizmente as
projeções de nossa nostradamus foram cruelmente repetidas, num fantástico déjà vu.
--“ Filhinha, quer ir à fazenda com o papai? “ Eu, bem depressa, ergui os bracinhos pra ele, que me tomou ao colo. A Nilce, mais que decepcionada, muito incrédula, gritou: - "-- Buuuuurrrrrra!"
Quando chegamos meus pais e eu ao consultório, a voz da Nilce martelava meus ouvidos. Injeção na perna. Quem já tinha ouvido falar numa coisa desta? Deitada na maca, vi o médico aproximar-se, com uma tremenda seringa na mão. Ah, não bastava minha mãe estar ao meu lado, à minha cabeceira. Acho que meu pai devia estar escondendo o rosto pra nem ver... A voz da Nilce golpeou-me de novo. Eu caíra como uma boba. Que fazenda, que nada! Injeção na perna, isto sim. O médico segurou-me a perna e eu, sem cerimônia lhe dei um chute. Minha mãe ficou horrorizada, o que me entristeceu demais. Lágrimas quentes corriam pelo meu rosto não só pela injeção, mas por ter desgostado minha mãe, até que o suplício terminou. A ferida, com o passar dos dias pouco a pouco, se fechou e deixou as feias cicatrizes que tatuaram sem arte minha perna esquerda.mas só um olhar muito atento poderá localizá-las.
--“ Filhinha, quer ir à fazenda com o papai? “ Eu, bem depressa, ergui os bracinhos pra ele, que me tomou ao colo. A Nilce, mais que decepcionada, muito incrédula, gritou: - "-- Buuuuurrrrrra!"
Quando chegamos meus pais e eu ao consultório, a voz da Nilce martelava meus ouvidos. Injeção na perna. Quem já tinha ouvido falar numa coisa desta? Deitada na maca, vi o médico aproximar-se, com uma tremenda seringa na mão. Ah, não bastava minha mãe estar ao meu lado, à minha cabeceira. Acho que meu pai devia estar escondendo o rosto pra nem ver... A voz da Nilce golpeou-me de novo. Eu caíra como uma boba. Que fazenda, que nada! Injeção na perna, isto sim. O médico segurou-me a perna e eu, sem cerimônia lhe dei um chute. Minha mãe ficou horrorizada, o que me entristeceu demais. Lágrimas quentes corriam pelo meu rosto não só pela injeção, mas por ter desgostado minha mãe, até que o suplício terminou. A ferida, com o passar dos dias pouco a pouco, se fechou e deixou as feias cicatrizes que tatuaram sem arte minha perna esquerda.mas só um olhar muito atento poderá localizá-las.
Lembro-me também da casa de Piratininga, com portão e portas estreitas e
altas, vidros em meia-lua sobre as portas.Entrava-se por essa porta, numa rua transversal à rua principal, havia uns degraus antes de se chegar à sala.
Sei que a casa era grande e com grande quintal, com muitas
árvores frutíferas. E uma pereira maravilhosa. A única pera que apreciei na
vida era deste quintal enorme, com árvores magnânimas em beleza, frutos e
sombra.
Mais uma lembrança de Pira Citi:
Muitas vezes, durante a semana, meus pais iam ao cinema, no
qual tinham um camarote reservado. (Acho um deslumbre! Sempre foi a paixão dos Nemes. Qualquer um de nós é doido por uma
história, e, se ela vier dentro de um filme, ah, todo o resto é silêncio.)
Minha avó não fazia gosto nestas saídas. Talvez um pouco de ciúme. Mas como se
recusasse a aprender a língua portuguesa, tinha que ficar em casa, cuidando de
nós. Assim que nossos pais se distanciavam, íamos todos para a cama de nossa
Sêti, ouvir as histórias com que ela nos distraía, em sua língua natal:
“ Kêniamakén, abuluzamén...” Assim começavam todas suas
histórias. Nós traduzíamos, como:” Era uma vez, há muito e muito tempo atrás...
“ Nem sei dizer como, mas entendíamos o que ela nos passava, sem entender o
árabe. Eram momentos de doçura. E ressalte-se: minha avó, que não era dada a grandes demonstrações de afeto, era muito carinhosa com os gêmeos. Ela os adorava. Diga-se também que eles a amavam muito. E
Wilson, durante o almoço, antes de pôr as misturas no seu prato, servia delas o
prato da avó. Vindo do Wilson, era uma ato de amor escancarado, pois o Ito só comia as misturas
e se servia antes de todos. Hahahá!
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