domingo, 15 de fevereiro de 2015

24 - Eu, eu mesma .



                             24 - EU, EU MESMA






     

     Nasci em Piratininga, como todos os meus oito irmãos mais velhos. Uma ingratidão pra minha terra natal: pouco me lembro dela Mas alguns fatos emergem à memória e trazem bons motivos de riso ou de emoção.

       Sei muita coisa de mim que não vive em minha memória e, sim, na de minha mãe, que, antes de deixar-nos, para sempre, me contou várias vezes, que eu nasci num  Domingo de Ramos, às três horas da tarde. Da janela de seu quarto, que ficava no andar de cima do sobrado, deitada na cama, aguardando a hora agá de minha chegada, via os verdes ramos subindo a rua, em direção à igreja.

      Minha vinda, assim me contou minha querida irmã Alice, não fora desejada. Tanto a surpresa de minha futura chegada foi funesta, que minha mãe chegou a procurar alguém que pudesse provocar a interrupção da gravidez. Se eu me sinto mal com esta notícia? Oh, não! Compreendo perfeitamente os sentimentos que despertei. Como sou do tipo simplório, isto é, não encuco facilmente. Afinal minha mãe nem bem tivera a Norma, quando engravidou pela nona vez. E lembrando que, durante a gestação anterior, vivera uma tragédia, com a morte precoce do tio Sêmi, seu irmão. Ficara terrivelmente abalada, porque meu tio era irmão e pai, ao mesmo tempo. Ao Sêmi dedicava um amor profundo, concentrado. Era ele o representante único  daquele lar de Marjeyoun. Sua morte a deixara numa prostração e revolta. A duras penas, conseguira lembrar-se de que Norma estava a caminho e que precisaria de mãe saudável e carinhosa. Quando Norma chegou, foi um alívio. Era perfeita, além de linda! Por tudo que passara, pensava que Norma seria a caçula. Eis que engravida novamente. Já tinha oito filhos para cuidar. Honestamente: pra que mais um? Já cumprira com muitos juros a determinação divina de crescer e multiplicar-se. Compreendo, mesmo, que minha mãe não desejasse mais um filho. Não tenho grilo nenhum sobre isso. 
         Alice me contou mais passagens picantes. A parteira, designada para este piedoso mister, se enchera de medo de meu pai e:
       --  Cruz credo, Dona Sálua! Se acontecer alguma coisa com a senhora, o Seu Alfredo me mata!
       
      E, assim, foi decretado que eu viria ao mundo.

      Já deu pra sentir o quanto meu pai amava minha mãe. Isso é realmente maravilhoso!
       Os meses se passaram e chegou a hora.
       
       Enquanto minha mãe já sentia as dores do parto, pela nona vez,  num domingo santificado, deitada em sua cama. vendo os ramos verdes passarem pela janela, levados pelos católicos à igreja, eu me preparava, sob os cuidados da parteira, para conhecer este mundo de Deus.
      Na sala ao lado, o amoroso esposo sentia as emoções de sempre. Ansiedade, preocupação. O fato de ser o nono bebê não conferia nenhuma calma ao experiente pai. Sentia nervosismo pelo medo de que algo adviesse. De tantas coisas trágicas ocorridas na cidade e nos arredores ele tinha conhecimento! Sentia impotência por não poder ajudar Sálua nesta hora, como nas horas do dia a dia em que ele sempre a protegia. Tinha que superar o medo, a dor, a vontade de chorar. Rezar. Era preciso rezar, pelo bebê e pela amada Sálua. Seu Anjo da Guarda velaria por todos. As crianças até que estavam colaborando. Fahda sempre ao lado dos gêmeos. Norma se aninhava nos braços de Renée. Nilce, pronta a ajudar no que fosse necessário. Sempre esperta e objetiva. Afinal, eis a vida, eis o mundo!  Era a quinta menina, o nono filho do casal amoroso. Sônia, o nome foi sugerido por Rosete, irmã de Sálua, que passara uns tempos em Piratininga, vinda de Rio Cuarto, Argentina, onde morava. Na entrada do outono, nasci. Eram três horas da tarde de um ensolarado Domingo de Ramos.





                      ACORDES DE PIRATININGA



     Há algumas cenas que me remetem a Piratininga:

    A primeira, nós, numa noite de verão, sentados na calçada, frente a nossa casa. Eu, ao lado do meu irmão protetor, Labib. Era noite escura, iluminada pelos vagalumes. O Labib e seu amigo Íbi caçavam os pirilampos e guardavam-nos em caixinhas de fósforos. Volta e meia, abriam, cuidadosamente, a caixinha e o pirilampo iluminava-se e fazia brilhar nossos olhos. Era um encantamento, aquela luzinha cintilando, toda azul, fora ou dentro da caixinha. Se eles os libertavam depois? Nem quero saber a resposta. Quero presumir que sim, lógico, jamais deixariam aquela luz se apagar.

     A segunda coisa de minha terra natal  de que me lembro é uma nebulosa cascata de imagens. Meu tio Sad tinha um cão policial (hoje sei que era pastor alemão) feroz. Quando passávamos na rua, em frente à sua casa, o cachorro já ficava completamente transtornado, enraivecido e furioso. Eu morria de medo do animal. Certa feita, passei  por ali e o cão estava livre. Num raio, arrancou sobre mim e nhac! mordeu-me a perna, seus dentes fincando-se em minha canela. Devo ter gritado muito, não me lembro do resto. Sei que o tempo não curou as feias marcas que restaram do episódio. Por incrível que possa parecer, nunca perguntei a minha mãe sobre as cicatrizes que o ataque canino deixara. Tinha tanto terror dos fatos que preferia nunca tocar nesse assunto.
     Mas, muitos anos mais tarde, já casada e já com a Karen, descobri a verdade. Estou pasma ainda hoje. Não, não fora o terrível cão amedrontador que me mordera. Aquilo fora um sonho, tão real, que eu o aceitei como verdadeiro até à idade adulta. Eu fora picada por formigas poderosas. Pode? Um sonho ser tão forte que apagou uma lembrança, sobrelevando-se a ela na memória? Pois foi o que aconteceu comigo.

      E agora: a terceira lembrança de minha terra natal:

 Minha perna estava com sério problema. O cão, policial, feroz... Já sabem a história toda. Fomos ao consultório do médico de Piratininga, a primeira vez, e eu, com dois anos, se tanto, mal podia entender a gravidade da infecção. O médico marcou nova visita para depois de alguns dias.( Ah! que história mais triste!! Alguns anos depois dessa consulta, o médico sumiu de Piratininga, ao descobrir a traição da esposa e nunca mais ninguém soube dele! A cidade ficou sem um excelente médico)

     Neste dia aprazado da segunda consulta, a Nilce, chefe do bando, me pegou pela mão, reuniu os demais irmãos, (Alice e Renée estudavam em São Paulo) Nelson, Wilson, Norma, com certeza Labib e Nassib, deu as palavras de ordem, agarrou-me pela mão e todos juntos fomos à garagem para esconder-nos, e, sob suas ordens, guardamos  total silêncio. Ela, antes, com o dedo em riste, me doutrinara: “ O Papai vem aqui e vai convidar você pra ir à fazenda. Você diga NÂO!  Porque ele não vai te levar pra fazenda e, sim, pra tomar injeção NA PEEEEERRRNA!. Você entendeu???? Quando ele perguntar,diga NÃO! “ Isso quase aos gritos, ela falando com aquele olhar sério, dos grandes e lindos olhos castanhos! O cabelo liso caindo no rosto, a expressão de extrema gravidade, todos ficamos paralisados e obedientes ao seu comando. Passaram-se minutos que pareciam horas. Estava quase dormindo, nos braços da nossa chefa, quando ouvi o chamado de meu pai: “Sônia,  Sonhita...” A voz vinha de dentro de casa, E nós lá na garagem, no maior silêncio. O chamado se repetiu diversas vezes, e a voz passeava de um cômodo a outro da casa. Até que ele veio à garagem. Deparou com o bando todo. O incrível é que ignorou todos os meus irmãos, como se só eu existisse ou estivesse ali. Incrível a psicologia que ele praticava. Nem uma admoestação para os insurrectos, nem sequer uma explicação sobre a tal da injeção na perna. Nada! Só se importava em me arrebanhar em seus braços e levar-me consigo. Não deu outra. Infelizmente as projeções de nossa nostradamus foram cruelmente repetidas, num fantástico déjà vu. 
       --“ Filhinha, quer ir à fazenda com o papai? “ Eu, bem depressa, ergui os bracinhos pra ele, que me tomou ao colo. A Nilce, mais que decepcionada, muito incrédula, gritou:               -    "-- Buuuuurrrrrra!"
      Quando chegamos meus pais e eu ao consultório, a voz da Nilce martelava  meus ouvidos. Injeção na perna. Quem já tinha ouvido falar numa coisa desta? Deitada na maca, vi o médico aproximar-se, com uma tremenda seringa na mão. Ah, não bastava minha mãe estar ao meu lado, à minha cabeceira. Acho que meu pai devia estar escondendo o rosto pra nem ver...  A voz da Nilce golpeou-me de novo. Eu caíra como uma boba. Que fazenda, que nada! Injeção na perna, isto sim. O médico segurou-me a perna e eu, sem cerimônia lhe dei um chute. Minha mãe ficou horrorizada, o que me entristeceu demais.  Lágrimas quentes corriam pelo meu rosto não só pela injeção, mas por ter desgostado minha mãe, até que o suplício terminou. A ferida, com o passar dos dias pouco a pouco, se fechou e deixou as feias cicatrizes que  tatuaram sem arte minha perna esquerda.mas só um olhar muito atento poderá localizá-las.

     Lembro-me também da casa de Piratininga, com portão e portas estreitas e altas, vidros em meia-lua sobre as portas.Entrava-se por essa porta, numa rua transversal à rua principal, havia uns degraus antes de se chegar à sala.

     Sei que a casa era grande e com grande quintal, com muitas árvores frutíferas. E uma pereira maravilhosa. A única pera que apreciei na vida era deste quintal enorme, com árvores magnânimas em beleza, frutos e sombra.

     Mais uma lembrança de Pira Citi:

     Muitas vezes, durante a semana, meus pais iam ao cinema, no qual tinham um camarote reservado. (Acho um deslumbre! Sempre foi a paixão dos Nemes. Qualquer um de nós é doido por uma história, e, se ela vier dentro de um filme, ah, todo o resto é silêncio.) Minha avó não fazia gosto nestas saídas. Talvez um pouco de ciúme. Mas como se recusasse a aprender a língua portuguesa, tinha que ficar em casa, cuidando de nós. Assim que nossos pais se distanciavam, íamos todos para a cama de nossa Sêti, ouvir as histórias com que ela nos distraía, em sua língua natal:

“ Kêniamakén, abuluzamén...” Assim começavam todas suas histórias. Nós traduzíamos, como:” Era uma vez, há muito e muito tempo atrás... “ Nem sei dizer como, mas entendíamos o que ela nos passava, sem entender o árabe. Eram momentos de doçura. E ressalte-se: minha avó, que não era dada a grandes demonstrações de afeto, era muito carinhosa  com os gêmeos. Ela os adorava. Diga-se também que eles a amavam muito. E Wilson, durante o almoço, antes de pôr as misturas no seu prato, servia delas o prato da avó. Vindo do Wilson, era uma ato de amor escancarado, pois o Ito só comia as misturas e se servia antes de todos. Hahahá!


Nenhum comentário:

Postar um comentário