quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

59 - Relicário: o Diário de Sálua

   59 - Relicário: O DIÁRIO DE SÁLUA
      

(Dia 31 de agosto de 1986, quanta dor!  29 anos sem ela)
       

         Quando, naquele 18 de abril, meu pai foi chamado por Deus, concluindo sua lida na Terra, Sálua passou a viver muito sozinha, embora Alice morasse em sua casa. A tristeza não arredava de seu coração e a saudade a mergulhava no passado.
         Vivendo em São Paulo e, portanto, longe de seu cotidiano, sem poder acudi-la em seus problemas, e com meus irmãos e irmãs também responsáveis por seus lares e por suas famílias, sugeri a minha mãe que escrevesse um diário, a fim de aliviar o coração.
          Foi uma excelente maneira de poder se confidenciar com esses instrumentos maravilhosos que são as palavras escritas. Foi muito bom para ela e para nós.
          
         Alguns da família gostariam de ler as páginas. Como era um segredo partilhado só comigo, não vou  dizer sim. Cada um de nós sabe o quanto ela se sacrificou por nós com mil e um cuidados. Cada um sabe como lhe retribuiu. Ninguém tem nada a se recriminar porque nossa mãe não recriminou ninguém. Era feliz e completa conosco, embora fôssemos tão divergentes dela mesma.
          Nas páginas das agendas-diário, deixou marcadas para sempre as cenas que mais amou na vida.
          

          Sempre se refere a seus filhos, genros, noras e netos com adjetivos carinhosos antes dos nomes: querido Labib, querida Evelyn, querida Alice, querida Renée, querida Nilce, querido Osvaldo, querida Jeannete, querida Lenita etc. etc.
          Contava os netos e bisnetos, com alegria e entusiasmo.
          Mas a cena que ela mais amou de sua vida foi a que viveu em Piratininga. Contou n vezes os fatos a seguir:
          À tardezinha, depois de muita labuta, ficava na varanda, da casa alta, olhando, no horizonte, a estrada que unia Piratininga à Fazenda Matão. Esperava, com ansiedade, ver o carro de Alfredo passar. Era a hora de seu retorno. Como saberia que era o carro dele, àquela distância? Ah, Alfredo tinha imaginado um recurso: três sinais de luz. Sozinha, ou com alguns dos filhos, ficava ali, a noite caindo, à espera de seu amor. Eis que três sinais de luz brilham já  no escuro da noite. Sim, é ele! Corre para sala, chama os filhos, pede-lhes  que lavem as mãos e penteiem os cabelos para o jantar, que Alfredo está chegando.
          Quando regressa a casa, Alfredo abraça com força a mulher de sua vida, infundindo ao lar a segurança de um marido amoroso e de um pai trabalhador
         Três vezes sinal de luz: três estrelas na estrada, três Marias no céu e mil estrelas no olhar. 
         Alguns da família gostariam de ler as páginas. Como era um segredo partilhado só comigo, não vou  dizer sim. Cada um de nós sabe o quanto ela se sacrificou por nós com mil e um cuidados. Cada um sabe como lhe retribuiu. Ninguém tem nada a se recriminar porque nossa mãe não recriminou ninguém. Era feliz e completa conosco, embora fôssemos tão divergentes dela mesma.

       O cantor preferido era Carlos Galhardo, enquanto todos só falavam em Francisco Alves e Sílvio Caldas. 
       Só ao nome de Carlos Galhardo, Alfredo se cobria de espinhos. Como Sálua poderia gostar de alguém que não fosse ele? Isso porque dizíamos, com naturalidade:" Mãe, o cantor de que você gosta, Carlos Galhardo". Uma pequena figura de linguagem, a pessoa pela voz. Logo aprendemos que esse tipo de metonímia não poderia ser utilizado na presença de nosso pai.
     Entre as músicas que eu tocava e estudava, a predileta de minha mãe era Fantaisie Impromtu, de Chopin. Desconfio que fosse pela parte suave e doce.
     O comediante predileto era Golias. Dizia que nem conseguia olhar a cara dele sem rir.
    Minha mãe não era de gargalhar. Sorria e ria, mas gargalhar nunca. Norma e Nelson eram os que a tiravam um pouco dessa sobriedade e, quando ria, deliciada com as besteirices que falavam os dois, eu me sentia agradecida. E me sinto até hoje.
       
     Mãe, minha mãe, altruísmo puro.
     Um corpo pequeno, capaz de gerar nove filhos, que conservaram a força e a saúde até à vida adulta.
     Comprava-lhe um bom presente, e ela imediatamente queria que eu ficasse com ele .
     Nunca a ouvi dizer:" Quero comprar" "quero ter", "quero usar", "quero para mim"
     Não, ela nunca quis o último pedaço de bolo .
     Não, ela nunca demonstrou medo nem insegurança.
     Nunca procurou ou se preocupou em ser perfeita.
     Nunca a ouvi falar "quero dizer", porque sua sinceridade era indômita e, se houvesse algo a dizer, ela dizia. Isso não quer dizer que não tenha engolido inumeráveis sapos pela vida.

     Tinha ouvidos infinitos para a narração do dia a dia de meu pai.
     Umas mãos macias e pequeninas que nos amparavam em nossas aflições
    Um olhar profundo que nos seguia, mesmo distantes
    Uma vontade férrea de não entregar o marido à Indesejada das Gentes e fazer a essa senhora uma oposição cerrada, dia e noite.
Seu olhar em vigília o cobria de proteção, com o mesmo cuidado com que ele a amparara desde seus quatorze anos.

     Um nunca estar ocupada para nós, seus filhos
     Cansada de vê-la usar, nos clássicos almoços familiares, talheres de jogos diferentes, guardados em caixas de lata de biscoitos ingleses, presenteei--a com um faqueiro de duzentas e tantas peças, que usou durante alguns anos.  
     Entretanto Osvaldo e eu, depois de poucos meses de casados, ao voltarmos a Jacareí,onde vivíamos, descobrimos  no porta-malas, além de frutas, esfihas e quibes, a caixa da Hércules com o faqueiro completo. 
     Não, não havia como vencê-la no quesito amo mais. 
     Usamos o faqueiro desde os primeiros tempos de nossa vida conjugal. Desnecessário dizer que, passados 32 anos, muitas peças se perderam. Inconformados, pesquisamos, telefonamos, mandamos emails e procuramos até encontrar, na própria fábrica o endereço  da loja com a reposição. Não poderíamos perder nenhuma peça, pois, em cada talher, há uma frase embutida: "eu te amo."



    Dia 31 de agosto de 1986. 29 anos sem ela.
    Nunca mais Osvaldo, Karen e eu ficamos na Cussi Júnior 11-40.  Não havia mais sentido. A casa eram eles, meus pais, era o amor com que nos educaram e nos protegeram  A casa  ficou na memória e lá estará guardada para sempre.Grande, hospitaleira, inviolável.  Osvaldo, o Nobre, o Bem Amado, não quis  objeto algum que estivesse lá. Sempre dizia: " Os bens da Cussi Júnior 11-40 só têm sentido com eles, seus pais."

  Meu coração é um relicário de amor e de gratidão.

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