(Dia 31 de agosto de 1986, quanta dor! 29 anos sem ela)
Quando, naquele 18 de abril, meu pai foi chamado por Deus, concluindo sua lida na Terra, Sálua passou a viver muito sozinha, embora Alice morasse em sua casa. A tristeza não arredava de seu coração e a saudade a mergulhava no passado.
Vivendo em São Paulo e, portanto, longe de seu cotidiano, sem poder acudi-la em seus problemas, e com meus irmãos e irmãs também responsáveis por seus lares e por suas famílias, sugeri a minha mãe que escrevesse um diário, a fim de aliviar o coração.
Foi uma excelente maneira de poder se confidenciar com esses instrumentos maravilhosos que são as palavras escritas. Foi muito bom para ela e para nós.
Alguns da família gostariam de ler as páginas. Como era um segredo partilhado só comigo, não vou dizer sim. Cada um de nós sabe o quanto ela se sacrificou por nós com mil e um cuidados. Cada um sabe como lhe retribuiu. Ninguém tem nada a se recriminar porque nossa mãe não recriminou ninguém. Era feliz e completa conosco, embora fôssemos tão divergentes dela mesma.
Nas páginas das agendas-diário, deixou marcadas para sempre as cenas que mais amou na vida.
Sempre se refere a seus filhos, genros, noras e netos com adjetivos carinhosos antes dos nomes: querido Labib, querida Evelyn, querida Alice, querida Renée, querida Nilce, querido Osvaldo, querida Jeannete, querida Lenita etc. etc.
Contava os netos e bisnetos, com alegria e entusiasmo.
Mas a cena que ela mais amou de sua vida foi a que viveu em Piratininga. Contou n vezes os fatos a seguir:
À tardezinha, depois de muita labuta, ficava na varanda, da casa alta, olhando, no horizonte, a estrada que unia Piratininga à Fazenda Matão. Esperava, com ansiedade, ver o carro de Alfredo passar. Era a hora de seu retorno. Como saberia que era o carro dele, àquela distância? Ah, Alfredo tinha imaginado um recurso: três sinais de luz. Sozinha, ou com alguns dos filhos, ficava ali, a noite caindo, à espera de seu amor. Eis que três sinais de luz brilham já no escuro da noite. Sim, é ele! Corre para sala, chama os filhos, pede-lhes que lavem as mãos e penteiem os cabelos para o jantar, que Alfredo está chegando.
Quando regressa a casa, Alfredo abraça com força a mulher de sua vida, infundindo ao lar a segurança de um marido amoroso e de um pai trabalhador
Três vezes sinal de luz: três estrelas na estrada, três Marias no céu e mil estrelas no olhar.
Alguns da família gostariam de ler as páginas. Como era um segredo partilhado só comigo, não vou dizer sim. Cada um de nós sabe o quanto ela se sacrificou por nós com mil e um cuidados. Cada um sabe como lhe retribuiu. Ninguém tem nada a se recriminar porque nossa mãe não recriminou ninguém. Era feliz e completa conosco, embora fôssemos tão divergentes dela mesma.
O cantor preferido era Carlos Galhardo, enquanto todos só falavam em Francisco Alves e Sílvio Caldas.
Só ao nome de Carlos Galhardo, Alfredo se cobria de espinhos. Como Sálua poderia gostar de alguém que não fosse ele? Isso porque dizíamos, com naturalidade:" Mãe, o cantor de que você gosta, Carlos Galhardo". Uma pequena figura de linguagem, a pessoa pela voz. Logo aprendemos que esse tipo de metonímia não poderia ser utilizado na presença de nosso pai.
Entre as músicas que eu tocava e estudava, a predileta de minha mãe era Fantaisie Impromtu, de Chopin. Desconfio que fosse pela parte suave e doce.
O comediante predileto era Golias. Dizia que nem conseguia olhar a cara dele sem rir.
Minha mãe não era de gargalhar. Sorria e ria, mas gargalhar nunca. Norma e Nelson eram os que a tiravam um pouco dessa sobriedade e, quando ria, deliciada com as besteirices que falavam os dois, eu me sentia agradecida. E me sinto até hoje.
Mãe, minha mãe, altruísmo puro.
Um corpo pequeno, capaz de gerar nove filhos, que conservaram a força e a saúde até à vida adulta.
Comprava-lhe um bom presente, e ela imediatamente queria que eu ficasse com ele .
Nunca a ouvi dizer:" Quero comprar" "quero ter", "quero usar", "quero para mim"
Não, ela nunca quis o último pedaço de bolo .
Não, ela nunca demonstrou medo nem insegurança.
Nunca procurou ou se preocupou em ser perfeita.
Nunca a ouvi falar "quero dizer", porque sua sinceridade era indômita e, se houvesse algo a dizer, ela dizia. Isso não quer dizer que não tenha engolido inumeráveis sapos pela vida.
Tinha ouvidos infinitos para a narração do dia a dia de meu pai.
Umas mãos macias e pequeninas que nos amparavam em nossas aflições
Um olhar profundo que nos seguia, mesmo distantes
Uma vontade férrea de não entregar o marido à Indesejada das Gentes e fazer a essa senhora uma oposição cerrada, dia e noite.
Seu olhar em vigília o cobria de proteção, com o mesmo cuidado com que ele a amparara desde seus quatorze anos.
Um nunca estar ocupada para nós, seus filhos
Cansada de vê-la usar, nos clássicos almoços familiares, talheres de
jogos diferentes, guardados em caixas de lata de biscoitos ingleses,
presenteei--a com um faqueiro de duzentas e tantas peças, que usou durante alguns anos.
Entretanto Osvaldo e eu, depois de poucos meses de casados, ao voltarmos a Jacareí,onde vivíamos, descobrimos no porta-malas, além de frutas, esfihas e quibes, a caixa da Hércules com o faqueiro completo.
Não, não havia como vencê-la no quesito amo mais.
Usamos o faqueiro desde os primeiros tempos de nossa vida conjugal. Desnecessário dizer que, passados 32 anos, muitas peças se perderam. Inconformados, pesquisamos, telefonamos, mandamos emails e procuramos até encontrar, na própria fábrica o endereço da loja com a reposição. Não poderíamos perder nenhuma peça, pois, em cada talher, há uma frase embutida: "eu te amo."
Dia 31 de agosto de 1986. 29 anos sem ela.
Nunca mais Osvaldo, Karen e eu ficamos na Cussi Júnior 11-40. Não havia mais sentido. A casa eram eles, meus pais, era o amor com que nos educaram e nos protegeram A casa ficou na memória e lá estará guardada para sempre.Grande, hospitaleira, inviolável. Osvaldo, o Nobre, o Bem Amado, não quis objeto algum que estivesse lá. Sempre dizia: " Os bens da Cussi Júnior 11-40 só têm sentido com eles, seus pais."
Meu coração é um relicário de amor e de gratidão.
Entretanto Osvaldo e eu, depois de poucos meses de casados, ao voltarmos a Jacareí,onde vivíamos, descobrimos no porta-malas, além de frutas, esfihas e quibes, a caixa da Hércules com o faqueiro completo.
Não, não havia como vencê-la no quesito amo mais.
Usamos o faqueiro desde os primeiros tempos de nossa vida conjugal. Desnecessário dizer que, passados 32 anos, muitas peças se perderam. Inconformados, pesquisamos, telefonamos, mandamos emails e procuramos até encontrar, na própria fábrica o endereço da loja com a reposição. Não poderíamos perder nenhuma peça, pois, em cada talher, há uma frase embutida: "eu te amo."
Dia 31 de agosto de 1986. 29 anos sem ela.
Nunca mais Osvaldo, Karen e eu ficamos na Cussi Júnior 11-40. Não havia mais sentido. A casa eram eles, meus pais, era o amor com que nos educaram e nos protegeram A casa ficou na memória e lá estará guardada para sempre.Grande, hospitaleira, inviolável. Osvaldo, o Nobre, o Bem Amado, não quis objeto algum que estivesse lá. Sempre dizia: " Os bens da Cussi Júnior 11-40 só têm sentido com eles, seus pais."
Meu coração é um relicário de amor e de gratidão.

muito amor!!!
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