terça-feira, 28 de abril de 2015

51 - Osvaldo


51 - Osvaldo


       Desde o primeiro ano da faculdade, acalentei uma paixão secreta: Osvaldo. Era ele o contador da firma de meus irmãos. Alto, loiro, forte, olhos azuis, voz doce e máscula. Nosso flerte era todo de esquivanças, de  olhares que gritavam, enquanto as bocas se calavam, hermeticamente. Volta e meia o telefone, extensão do da firma ( ah, era o contrário)  tocava, eu corria para atender, na esperança de ouvi-lo. E era.Era ele. Percebia a delicadeza da voz quando ouvia a minha. Uma voz que sorria, uma voz um tanto tímida, embaraçada. Aquele flerte gostoso, que me fazia sonhar, eram meus pensamentos dia e noite.
       Havia um trabalho a fazer em Literatura Portuguesa. Sobre Os Lusíadas. Naquele tempo, era necessário datilografá-lo nas máquinas de escrever (Remington, as mais comuns). E eu não aprendera a datilografar: havia um cem número de coisas  pra que saísse uma página bem feita. Pedi aos irmãos, particularmente ao Nassib, que alguém da firma pudesse datilografar meu trabalho. Bem no fundo, queria , ardia que fosse ele. Sim, quem mais sabia datilografar era ele, o loiro lindo, de estatura dionisíaca, de olhos de anjo.
       Combinamos um dia pra isso. E lá apareceu na Cussi Júnior o homem que seria, vinte e um anos mais tarde, meu marido. Depois dos cumprimentos, cheios de subliminares, comecei a ditar  as páginas. Ele ia datilografando e, nas pausas, pausando seu olhar no meu. Ai! No meio da tarefa, não resisti:
       -- Você tem namorada?
       -- Não! --Respondeu prontamente.
       O trabalho era sobre mitologia nOs Lusíadas. Lógico: sucesso absoluto.
       Passaram-se os dias.
       Uma noite, Norma e eu descemos a Gustavo Maciel, pra irmos ao cinema. Era noite de quermesse. Quando íamos atravessar a Avenida Rodrigues Alves, vi, pelo meio da avenida, que estava interditada aos carros, um casal dirigindo-se à quermesse, que era ali, em frente à Igreja Matriz. Meu coração deu um pulo. Era ele, com o braço direito envolvendo a cintura de uma moça odiosa. O que me fascinou, revoltou, hipnotizou foi a mão dele na cintura dela.
       Não, ele não tinha namorada. Tinha noiva!
       No escurinho do cinema, fiquei chorando.

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