terça-feira, 28 de abril de 2015
53 - Idas e vindas do amor II
53 - Idas e vindas do amor II
Em junho, dia 21,1969, ficamos noivos. Nosso namoro era assim: durante a semana, ele trabalhava em São Paulo e eu em Iacanga. Na sexta-feira, à noite, Osvaldo chegava, tarde da noite. Era só o tempo de ficar conversando e rindo na varanda.
No sábado, ficávamos juntos, íamos ao cinema. Aos domingos, almoço em casa e despedida. Ele voltava pra capital. Depois do noivado, nossas conversas também abordavam nosso futuro. Ele marcou setembro para nos casarmos. Setembro chegou e foi embora e nada de conversas mais consistentes. Tudo bem. Eu sabia que ele e seus amigos passavam um momento crítico na firma e a coisa estava mais como uma revolução. Não era hora mesmo de assumir compromisso. Assim, mais ou menos, marcamos pro fim do ano. Pois é: o fim do ano acabou e nada mesmo. Uma certa desilusão ia-se apoderando de mim. Não achava nada agradável essa indefinição. E, assim, antes de completarmos um ano de noivado, dei meu basta, sem nem explicar a razão. Assim, ninguém ficou sabendo as causas do rompimento.
Como nunca quis explicar os motivos, cada um ia imaginando uma coisa diferente. Façam ideia na minha casa, com tantos irmãos, todos amigos e admiradores do Osvaldo, como a coisa ferveu. E na casa dele não era diferente. As causas do fim de nosso noivado eram imaginadas na maior criatividade.
Seis anos se passaram, nós sem nem sequer nos depararmos um com o outro, era janeiro de 1976. Estávamos meus pais e eu em Campinas, onde minha mãe seria operada de catarata.
Nesse meio tempo, Osvaldo saíra com muitas mulheres, foi assediado por tantas garotas e se manteve solteiro. Por minha vez, também namorara um cabeça dura, e troquei ideias com outros mais. Mas sei lá: nunca me sentia feliz como o fora com Osvaldo.
Aí, nesse janeiro de 1976, Norma, fazendo a vez de Cupida, ligou paro o Osvaldo e avisou que estávamos em Campinas: que minha mãe, que ele sempre amara, iria ser operada. Depois do choque desse telefonema, que acordou os fantasmas do passado, Osvaldo se comprometeu a nos visitar no Instituto de Olhos Penido Burnier.
Quando fiquei sabendo das artes da Norma, e que ele viria visitar minha mãe, meu coração pulou de alegria e temor. Não poderia imaginar como é que nos encararíamos, depois daquele noivado desfeito.
Para conquistar pontos com ele, fui ao mercado comprar frutas, pois sabia que esse era seu alimento favorito.
Às seis horas mais ou menos, ele chegou. Foi tudo tão normal, como se não tivesse havido esse vácuo de seis anos entre nós. Servi as frutas. Meus pais dormiam. Nós, na salinha ao lado,( o quarto dispunha de uma salinha) conversávamos e ríamos sem parar. Era noite alta e ainda nossos risos incontroláveis poderiam destoar do clima de um hospital. Despediu-se e ficou de voltar na quinta feira.
Na quarta feira me ligou, dizendo que não iria me ver mais. Que não era criança pra voltar e depois acontecer o desfecho incompreensível. E enquanto ele falava, desenhava num papel. O quê? Um burro. Era assim que ele se sentia só de pensar em voltar a me namorar. Ele guardou o desenho que hoje é guardado por mim.
Desliguei o telefone, num sentimento de impotência. Se era para isso, por que ficáramos tão bem aquela noite? Sem poder ocultar, narrei aos meus pais. Incrivelmente, meu pai me disse:
-- Se ele não vem, vá você.
Fiquei atarantada com o conselho, pai incrível o meu! Mas imediatamente achei que era isso que eu queria. Se não era pra voltarmos, paciência, mas eu deveria falar cara a cara com ele.
Liguei pra ele e avisei.
-- Vou pra SP falar com você. Pode me esperar na rodoviária?
E ele, surpreendentemente:
-- Eu irei aí na quinta feira.
A quinta feira chegou e com ela, à noite, o Osvaldo. Conversamos seriamente e ... nem voltamos, nem terminamos. Quase voltamos. Pelo menos achei que sim, mas não seria tão fácil, como minha simplória filosofia pudesse imaginar.
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