terça-feira, 7 de abril de 2015
48 - Marília
48 - Marília
Logo que me formei, havia um grande desajuste em casa. Aqueles anos de fartura e de cabeça fresca se evaporaram. A situação havia mudado.
De posse de meu diploma de professora de Letras, não perdi tempo e fui lecionar em Marília. Fiquei hospedada na casa de uma patrícia, Dona Lulo, graças às relações de amizade de meu pai.
Eram poucas aulas no Instituto de Educação Monsenhor Bicudo. E eram aulas de latim, para o clássico! O diretor ficou com medo de que eu desistisse por serem apenas doze aulas, o que seria insuficiente pra me manter. Nem sei como, na mesma hora, na sala dessa diretoria, apareceu a diretora de uma escola particular, que, simplesmente, me fisgou para ministrar aulas de Português e Francês, para o Ginásio e Colegial. Sim, lecionaria tudo para todos!
Assim, estava assegurada minha sobrevivência.
Mas ... recém formada lecionando Português, Latim e Francês, para Ginásio, Científico e Clássico? Batismo de fogo. E fogo de artilharia! Sim, fui boa aluna, mas nunca fui gênio. Resultado: ficava preparando aulas até depois da meia noite e acordava cedo para trabalhar. Não foi fácil.
O bom da história é que me saí relativamente bem, e, ao final do ano, fui escolhida para paraninfa de duas classes de terceiro ano.
A casa de Dona Lulo ficava bem em frente ao cinema da Sampaio Vidal. Era um lugar ótimo pra mim. As duas escolas ficavam a uma distância que eu poderia vencer a pé, tranquilamente.
À tardezinha, depois das cinco horas, ouvia, lá no quarto, vindo da rua, um assobio forte e muito harmonioso, com as músicas de então. Era um sinal. Corria pra varanda e um lindo e exuberante moreno, olhos faiscantes, castanhos, cabelo liso preto, me devorava com os olhos, num flerte inesquecível. Nunca fui de muito namorar, mas flertar sempre foi muito poético e virei expert no assunto. E não é que esse lindão foi estudar Direito, mais tarde, em Bauru? Mas nossos destinos nunca mais se cruzaram. Sem dor ou dramas. Foi bonito enquanto durou e só.
Não sei que água eu bebia ali. Mas houve efeitos avassaladores no meu visual e em minha autoestima.
No meu visual: minha pele ficou um horror! Eu, que era, reconhecidamente, possuidora de uma pele perfeita de pêssego ou de outras frutas aveludadas, de repente, fiquei com o rosto tomado de espinhas nojentas. Ficou, para seguir o estilo frutífero, como um figo-da-ìndia. Toda a pele do rosto! O casamento do Labib era em setembro e eu nem sabia como iria com aquele inferno no rosto. Aí apareceu a salvação: foi a primeira vez que usei uma base.
Quanto à exacerbação da minha autoestima, explico-me: na minha vida inocente em Bauru, nunca tivera grandes interessados em me namorar. Mas em Marília, acho que mamãe resolveu passar mel em mim. Nunca vi tanta gente querendo me namorar. Mas saí incólume. Não porque não me interessasse por algum deles, mas pela sorte de ter tanta gente caindo de amores, à minha frente, tive que pagar o ônus: os interessados sempre se colidiam. Daí hostilidade, beligerância entre os machões e a dama fugindo de mansinho. E isso só no flerte, ainda bem que nem cheguei a namorar.
No final do ano, voltei a Bauru e consegui aulas, no Morais Pacheco, depois de uma ex-colega da Faculdade quase me arrancar os cabelos, ( foi a primeira vez que vi as garras da ambição e do egoísmo, mas o diretor foi firme em me atribuir as aulas. Que diretor! Era o Dr Retz, meu fascinante ex-professor). Graças à inteligente administração, a escola granjeara o status de melhor escola de Bauru. Nesse ano em que fiquei em Marília, contraí duas dívidas eternas:
Primeiro: com minha senhoria, Dona Lulo, na casa de quem fiquei durante o ano todo. Sua casa era grande, de salas espaçosas, e de um silêncio mortal.
Dona Lulo compensava a tristeza de seu lar com uma ternura maternal toda dedicada a mim. Como não tivera filhos, apegou-se a mim e me tratou com um carinho amável, sereno, dedicado. Fazia comidas deliciosas para me agradar. Seus grandes olhos azuis me seguiam pela casa, com um amor que só vi nos olhos de minha mãe. Ela me elegeu como filha. E eu aceitei e retribuí, reconhecidamente, esse amor.
O marido de Dona Lulo era muito aborrecido. Quase não falava. Durante as refeições, mantinha-se silencioso e só abria a boca pra pedir alguma coisa. E sempre numa voz sem carinho, sem delicadeza. Meu coração sofria por ela. Aquele silêncio me matava. Principalmente, às seis horas, horário do jantar, antecipado, que eu lecionava também à noite. Aquele gigantesco silêncio me oprimia, me deprimia. Lembrava de minha casa, à mesa, as conversas, os papos, as risadas. Nessa hora, o telefone tocava. Era minha mãe. Aí era só falar uma palavra e cair na choradeira. Dona Lulo me consolava. Acalmava-me. E o marido, aquela múmia! Eu achava que ela deveria ter-se casado com uma pessoa melhor. E ela era linda! Uma senhora linda! E honesta! Quando um transeunte, passando em frente à sua casa, a viu, não resistiu e a chamou de bela mulher. Dona Lulo tomou a vassoura e o ameaçou, pela falta de respeito! Ah, que tempos! Que mulheres!
Ainda vi Dona Lulo umas três vezes. Uma, que ela foi a nossa casa almoçar, com seus familiares. A segunda vez, Osvaldo e eu, noivos, fomos à sua casa (ela se mudara da Sampaio Vidal) e passamos a tarde com ela. Seu Amélio já partira para o destino final. E a terceira vez foi quando ela me visitou em São Paulo. Veio com Vitória, prima de meu pai. Mundo pequeno!
Saudade, amor e reconhecimento, Dona Lulo. Que maravilha eu tê-la encontrado. Como Deus me ama!
A segunda pessoa a que sempre serei devedora é minha prima Lili. Linda, rosto maravilhoso, de traços finos, olhos castanhos esverdeados, voz de mel, boca bem feita, de lábios carnudos e sensuais, toda feminina, toda amor.
Moravam ela, o marido e os filhos bem em frente à escola particular em que eu trabalhava: Escola Ninie Póvoas. A Lili deixava a empregada de guarda na frente da casa, para me chamar, quando eu saísse da escola. E sabem para quê? Para eu tomar café, comer um lanche da tarde em sua casa. Que prima mais doce! E conversávamos muito. Lili era sensível ao belo, à arte, à poesia. Conhecendo-a um pouco, comprei duas Antologias da Poesia Universal, uma pra ela e outra pra mim. Dois livros que uniam duas primas, duas amigas, duas irmãs. Que pessoa linda!
A sogra da Lili era aquela que, na juventude, fora noiva de meu pai. Uma noite, Lili me convidou pra assistirmos a um concerto de piano. E a sogra dela também foi. Ela me olhava séria, observadora, com olhos profundos e pensativos. Ah, sei bem o que ela sentia. meu pai me contara toda a história. Foi um tanto opressiva essa noite e esse encontro.
Lili, lembro-me dela me oferecendo um pãozinho, fazendo-o estalar, pra me dar vontade. E, linda, bem arrumada, exuberante, atraindo olhares de admiração, indo ao cinema comigo. Uma estrela! Obrigada por seu carinho. Com ele você conquistou para sempre meu amor.
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