segunda-feira, 13 de abril de 2015
50 - Andanças
50 - Andanças
Depois de Marília e do Morais Pacheco, professora contratada, minha vida foi a de uma andarilha. Trabalhei em Agudos, Pirajuí, Presidente Alves, Bauru, Piratininga e, finalmente aportei, como professora efetiva, em Iacanga, por um ano e meio, para chegar a Bauru, novamente Morais Pacheco.
Em todos os lugares em que lecionei, fui-me encontrando e encontrando pessoas maravilhosas, que fincaram bandeira em minha vida. Aquela timidez, que me impedia de ser eu mesma, foi logo sendo sufocada pela responsabilidade de ensinar. Com a prática, a naturalidade e simplicidade foram ganhando terreno em minha personalidade. A sala de aula me inspirava. Desde o começo, sentia-me no meu ambiente. Aquelas lousas eram minha moldura. Acho que eram as marcas da Irmã Arminda. E, nem sei como, fui me exteriorizando, a ponto de rir com alunos, fazer um pouco de teatro, declamar poesias, improvisar textos engraçados, enfim, eu fui me tornando eu mesma. No início com sacrifícios da alma e do pudor. Lembro-me de um aluno do colegial que ficou encarando meu busto. Aquilo me deu uma raiva tão grande, que, encarando-o de volta, passei-lhe o maior sermão, reduzi-o a um fragmento de gente. Sim, a ira que se apossou de mim sempre voltaria por outros motivos: paciência estourada pela indisciplina, cola, desrespeito. É espantoso notar que nesses arroubos irados, meu vocabulário era estelar, por isso mesmo deixava o infrator completamente derrotado. Só Deus explica!
Ia para Iacanga todas as manhãs, saindo às seis horas de casa. Em geral, dava carona para alguns colegas. Mas, às vezes, ia sozinha, pois os amigos amiúde faltavam.
Eu com o Gordini, cor de chocolate, cor do amor, segundo meu cunhado Jorge, sozinhos na estrada, manhãs maravilhosas, caminho sossegado, com pouco movimento, aqui e ali despontando uns bosques com árvores. E, num ponto x da estrada, do lado esquerdo, alguns quilômetros antes de Iacanga, uma árvore majestosa, pela qual me apaixonei. Conceição, uma querida aluna, apelidou-a de árvore de Dona Sônia. Aceitei e incorporei-a aos meus mais queridos bens. Acredito que minha paixão por árvores tenha nascido pelas mãos de minha mãe, que as plantava com tanto amor, que em um ano alcançavam altura majestosa.
O Gordini era cor de chocolate, cor de amor, como definiu meu cunhado saudoso Jorge. Parecia que tinha sentimento. Nunca me deixou na estrada, nunca aconteceu que um pneu furasse no trajeto. Não! Ele arreava no pátio da escola, mostrando a todos porque um de seus pés estava ferido. Aí era incrível. Um dos alunos me procurava em alguma sala, pedia a chave do Gordini, que eu lhe atirava e, uma equipe eficiente não só trocava o pneu, como também se incumbia de mandar consertar o estragado. Quando voltasse pra Bauru, o carro já estaria ok, com o estepe no lugar. Foram anjos em minha vida. Nunca os esquecerei, nem nossas sessões artísticas que movimentavam a escola.
Encontrei nas classes de Iacanga almas sequiosas por aprender. O clima entre nós era de trabalho fértil, de respeito e amizade. Não me lembro de nenhuma vez em que se queixassem do tamanho dos exercícios para fazer em casa. Nem de que se queixassem de que não entendiam alguma coisa. Ou das leituras extraclasse. E, acabado o período matutino, os alunos voltavam aos seus lares. Mas ... ó surpresa! Depois do almoço, lá estavam eles de novo na escola, como se fosse o segundo lar.
Houve um ano em que a escola promoveu uma feira de Ciências, prestigiadíssima pelos iacanguenses. O professor de Artes era muito habilidoso e os alunos, sob sua batuta, inventaram os mais eficientes aparelhos eletrônicos, sobre os temas estudados. Os jogos inventados para avaliar ortografia, sintaxe, conjugação verbal foram um sucesso. Além do que aproveitavam as letras de músicas e poemas pra enfeitar os quadros negros. Ah, e havia, na nossa sala, fundo musical, com aparelhos e discos que os alunos escolhiam e traziam. A Sala de Português foi das mais visitadas, porque as pessoas se sentiam instigadas a responder aos testes e saber a quantas andava seu estudo de língua pátria.
Quando houve o Concurso de Remoção, não titubeei. Inscrevi-me, apesar de estar ligada aos meus alunos por laços de amor, respeito e de amizade, que nunca se desfariam.
Para terem ideia de como eram meus alunos, narro o que vai a seguir: fui nomeada diretora, por motivos muito tristes. Nosso diretor falecera num acidente em Arealva. Como era a única professora efetiva, tive que assumir a diretoria.
Foi contratada uma professora substituta para assumir minhas aulas. Numa manhã, em que eu estava às voltas com a papelada administrativa, uma equipe de alunos veio me procurar. Vinham reclamar da substituta, porque ela não dava aulas e, sim, ficava lendo. Pois era assim meu aluno: ávido por saber.
Voltando ao Gordini, ele tinha uma neura. À tarde, quando voltávamos pra Bauru, o infeliz se insurgia contra o destino. Aquele ponteirinho que indicava a temperatura da água começava a delirar e a aproximar-se perigosamente do limite em vermelho. Oh! Quantas vezes tive que parar no acostamento para que ele recobrasse a calma. Mas quê! Era só rodar um pouco, que aquela seta doidivanas se dirigia ao perigo. De repente, não mais que de repente, apareciam no horizonte, os brancos dos edifícios de Bauru. Milagrosamente, o ponteirinho sofria um baque violento e caía pro normal! Isso todas as tardes, enquanto tive o Gordini.
Entender como?
Uma coisa deliciosa acontecia nas viagens. Tinha,no carro, meu Blaumpunct ponto verde, um autorrádio incrível. Havia uma emissora que só transmitia músicas e horário. E todos os dias eu ouvia, num feitiço, a voz maravilhosa de Milton, cantando Travessia. Sim! Todos os dias! O produtor do programa gostava tanto da música quanto eu. Eu sentia que aquilo era um sinal de que tudo estava bem, tudo estava no seu lugar.
Dedico o post aos meus ex-alunos de Iacanga, com quem trabalhei com tanto prazer. E aos meus pais, que esperavam meu retorno do trabalho.
Ficou a marca sonora no coração.
Em casa, meus pais esperavam, ansiosos, na sala, por mim. Depois do banho renovador, corria pra junto deles e assistíamos juntos à novela A Escrava Isaura. Ai, momentos do paraíso!
Eu atravessava esses tempos, que não foram de pedra, com essa beleza e essa paz no coração.
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