O Líbano passava por momentos terríveis de dominação turca. O país estava às mãos de inimigos da pátria, estrangeiros que desafiavam as leis e os costumes libaneses. A pequena cidade onde os Nemes e Hamam viviam, Judeith Merjeioun, estava irreconhecível. Casas eram revistadas, saqueadas, vasculhados quartos, gavetas, porões e sótãos à procura de dinheiro, de jóias e de indícios de rebeldia. Já iam longe os dias de paz, de abundância, de fartura. O que se via era um povo aflito, sofrido, empobrecido e humilhado.
Ao mesmo tempo, chegava ao Líbano a notícia de
um país da América do Sul, em cuja terra, cavocando-se, um pouco que fosse, se
encontrariam pedras preciosas e ouro. Circulavam também novidades sobre
conterrâneos vitoriosos no Brasil. Parecia o retrato da verdadeira Terra
Prometida. As emigrações começaram a dominar os sonhos dos jovens. Precisavam
buscar outro lugar, onde fosse possível prosperar e viver em paz.
Organizavam-se em grupos de amigos, ou de familiares, compravam as passagens em
navios que os levariam para o novo mundo, a América.
Felipe e
Alexandre, irmãos mais velhos de Alfredo, já tinham emigrado para o Brasil. A
cidade escolhida fora Piratininga, interior de São Paulo. Era pequena,
poucos habitantes, mas possuía uma forte e unida colônia libanesa. Os irmãos
ali se casaram e se estabeleceram. Trabalhavam no comércio e puderam, em pouco
tempo, oferecer às famílias, que rapidamente cresciam, uma vida digna, com
conforto e paz.
Alfredo ficou
obcecado pela ideia de ir viver ao lado dos irmãos. Sofria o dilema de escolher
entre submeter-se à dominação turca ou abandonar tudo que lhe era tão caro ao
coração e aventurar-se, sozinho, ao desconhecido. Singrar mares por meses e
meses, para chegar à terra dos sonhos, o Brasil. Sentia esse desejo, como
comichão, de que não pudesse libertar-se. Sonhar com o Brasil, de olhos
fechados ou abertos lhe parecia uma predestinação de vida. Suas noites eram varadas de visões de um país
cheio de sol e de alegria. De trabalho e de riqueza. De prosperidade e de
saúde. Enquanto os pensamentos o afligiam, continuava seu trabalho, nos
negócios do avô, administrando a cáfila usada para os mais diversos fins,
principalmente o de transporte de cargas e de pessoas. Entretanto, nada, depois
da invasão turca, poderia ter garantias. Nem mesmo poderia contar com as aulas que ministrava de
idioma russo, obrigatório nas escolas do país.
O coração
lhe doía com o pensamento de deixar sua casa, seu país. E o pior de tudo; doía-lhe deixar seu
querido irmão caçula, seu companheiro de folguedos. Mas era necessário ir
embora. Era preciso. Se desejava, de todo o coração, uma vida de paz, de
liberdade e de progresso, só emigrando. Se seu desejo era, um dia, poder amparar sua mãe, convinha largar tudo ali,
sua casa, seus amigos. Seus alunos de idioma russo. As aulas que ministrava
davam-lhe muito prazer e pouco retorno financeiro. Sentia retorcer-se o
coração de dor por deixar tudo que tanto amava. A vida, no Líbano, tornara-se
sem perspectivas. Os turcos se apossaram de tudo. Não havia outra maneira de
conquistar uma vida melhor. Só emigrando. Só deixando o Líbano atrás de seus
cedros. Guardaria, no fundo de seus olhos, a imagem dos campos verdes e
dourados, repletos de rebanhos, das frutíferas mal se sustentando pelo peso dos
frutos que carregavam, da cidade hospitaleira de sua infância, com suas casas de pedra, da neve cobrindo
tudo, no inverno. Seus ouvidos guardariam as músicas árabes, de letras
sentimentais e o ruído das batidas sincopadas
dos pés, nas danças dapki, cheias de
sedução e de energia. Sua língua guardaria o idioma pátrio e ganharia mais um
idioma.
A esperança
de viver num país diferente e novo foi tomando lugar em seu coração. Depois de
noites e noites pensativas, a atração pela ideia de emigrar para o Brasil
ganhou força e sobrepujou qualquer dúvida. Iria para o Brasil. Nos dias
seguintes, pesquisou quais patrícios fariam a mesma viagem. Juntou-se a eles,
todos jovens, alguns de treze anos apenas, ele, com pouco mais, sozinho, numa
manhã auspiciosa, embarcou no navio que o levaria a uma nova e palpitante vida.
Como ariano autêntico, prevenira-se com algum dinheiro nos bolsos, destinado a
ser investido num bom negócio.
De peito
aberto, atirou-se à maior aventura de sua vida: olhava o mar imenso, pensando
em seu destino. Adivinhava, ao longe, a pequena cidade onde se estabeleceria e
o futuro que forjaria com suas mãos fortes, com sua determinação valente. Principalmente,
com a proteção de Alá e sob o olhar atento e vigilante de seu Anjo da Guarda. A
frase de César, vim, vi, venci,
poderia ser sua bandeira. Logo poderia proteger sua valorosa mãe, que viúva tão nova
ficara, e seria ele a oferecer-lhe uma vida boa, de abastança
e de paz. O fato de Felipe ser fruto do primeiro casamento de Abussâmara, seu
pai, fazia surgir entre madrasta e enteado, um clima de distanciamento, de
frigidez. Fahda não poderia contar com Felipe. Nem lhe passava pela cabeça tal
disparate. Se, algum dia, precisasse de alguma coisa, tinha seus filhos para
socorrê-la: e, mais que todos, Alfredo. Confiava nele, em sua energia, em seus
talentos. E Adib era, sem dúvida, seu caçula adorado, ainda um mocinho
adolescente.
Num navio repleto de emigrantes, cujos sonhos delineavam um futuro
grandioso, passou meses antes de ancorar
em Santos. Era início do século
20, os documentos eram assinados como “saídos de Istambul”. Portanto
todos os emigrantes vindos do Líbano passaram a ser considerados turcos, fato que sempre lhes causou indignação. .
Assim que seus
pés tocaram o chão brasileiro, amou o país. O calor do clima foi um afago
quente em seu coração. Sentiu que o Brasil seria o país de sua vida. Sua terra.
Sua pátria. O Líbano, dominado por estrangeiros, era um país
estranho agora. Continuaria, sim, com as lembranças dos bons anos que lá
vivera. Como Robinson Cruzoé, sentiu que jamais se arrependeria de sua decisão.
As cores brilhantes deste novo país inundaram seus olhos de luz e de certeza de
vitória. A liberdade que experimentava nestes primeiros contatos sossegou sua
alma, aquietou suas últimas apreensões. Era essa liberdade que ele buscava. Evidentemente,
era ali que ela morava. E era onde resolveu ficar para sempre.

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