Adib, Alfredo, Felipe e Alexandre
3 - Do Líbano a PiratiningaSaindo de Santos, de ônibus, para São Paulo e daí para Piratininga. Da janela de vidro, de seu lugar, vê desfilarem as verdes paisagens ricas de uma terra que já se fazia notícia. Sabe que, entre todos os estados do país, São Paulo é o mais importante, o mais promissor, é a terra de que se fala em todo o lugar: “ São Paulo não para” , slogan que define o progresso potente em todas as áreas de trabalho, de ciência e de arte.
No caminho para o oeste do estado, várias paradas. Entra
gente, sai gente. Muitos patrícios ficam em outras estações.
Quantas vidas renascendo em novas terras, em novos trabalhos!
Em cada parada, uma voz anuncia a localidade e o tempo
disponível pra esticar as pernas. O viajante desce, anda um pouco, aprecia a
paisagem, os jardins bem cuidados, compra alguma fruta de época. Passados dez
minutos, às vezes menos - conforme o lugarejo era o tempo de parada -
retomava-se ao lugar.
Caminho longo, naqueles longínquos tempos. Pouco a pouco,
Alfredo se aproxima de seu destino. Piratininga. Finalmente, a parada tão
esperada. Felipe e sua família o aguardam e o acolhem com alegria e afeto.
O irmão mais velho dá-lhe trabalho e acomodações para viver. No dia seguinte, já inicia sua nova vida. Acorda bem cedo, limpa as cocheiras, lava os cavalos. Não era bem isto que ele buscara, ao imigrar para o Brasil. Mas sabe que as conquistas nunca serão fáceis, nunca virão por obra do acaso e, sim, por seu esforço.
O irmão mais velho dá-lhe trabalho e acomodações para viver. No dia seguinte, já inicia sua nova vida. Acorda bem cedo, limpa as cocheiras, lava os cavalos. Não era bem isto que ele buscara, ao imigrar para o Brasil. Mas sabe que as conquistas nunca serão fáceis, nunca virão por obra do acaso e, sim, por seu esforço.
Procura não perturbar a vida do irmão. Felipe tem mulher,
filhos. E outros agregados. Bastante orgulhoso, Alfredo, no mais das vezes, não
se senta à mesa, durante as refeições. Justifica com um “não tenho fome”, ou
“já comi na rua”,quando, na verdade, nada comera. Por isso mesmo, sempre leva
para o quarto a fruta brasileira que é mais abundante na cidade e que sacia sua
fome: a banana: nanica, a mais comum por ali. A barulheira de protesto do estômago logo é aplacada com as deliciosas
frutas. Há quem odeie a banana pela lembrança da fome que, um dia, ela lhe saciou. Mas
Alfredo sempre teve o maior respeito pela fruta que lhe deu força e energia para
estes primeiros e sofridos tempos. Fez uma promessa a si mesmo: quando as
coisas melhorassem, e tivesse alguma terra para cultivar, plantaria dois
alqueires de bananeiras, cujos frutos ajudariam outras pessoas que estivessem
na situação por que ele agora passava.
Ágil e objetivo, desincumbe-se das rudes tarefas e ainda lhe
sobra tempo para ajudar o irmão, na loja. Como não fale o português, só pode
ajudar em serviços de limpeza. Felipe nem dispõe de tempo para lhe ensinar
alguma coisa do Português.
De temperamento alegre, de modos afáveis e de presença
elegante, alto, loiro, olhos azuis, feições másculas e harmoniosas, jovem, simpático, alegre e de bom caráter, Alfredo
atrai a atenção dos filhos da terra e, rapidamente, conquista amizades. Entre
elas, a do Padre José Maria, que o acolhe à noite, com a irmã, para conversas amigas
e, principalmente, para aulas de Língua Portuguesa. Em pouco tempo, Alfredo já
fala, lê e escreve o necessário para sua nova vida. Deste momento em diante,
ajuda o irmão na loja de comércio. Sua simpatia e boa vontade no atendimento
começam a lhe trazer fregueses fixos, que só querem ser atendidos por ele. As
amizades se multiplicam. E ainda há tempo para flertar com as garotas da
cidade. É inteligente, solteiro, trabalhador, bonito, educado. É tudo
que uma moça pode desejar. Seu trabalho na loja lhe rende, a cada dia, mais satisfações.
O tino comercial, característico da raça, aflora e o faz brilhar. Em poucos
anos, com as amizades que conquista, pode comprar uma casa de comércio: a Casa
Central. O local não poderia ser melhor. Uma esquina, na principal rua da
cidade. Anexa ao prédio, a residência de muitos cômodos, ampla e arejada. Muitos
amigos o ajudam nesta empreitada. Era a hora de chamar a mãe pra morar com ele.
Fahda
instalou-se na casa de Alfredo, no mesmo prédio da Casa Central. ( Quem for a
Piratininga, pode ver a casa ainda, sólida, com portas altas e estreitas e uma
varanda na parte de cima do sobrado.. O prédio da Casa Central, mais tarde, foi
agência do Banco Mercantil e, posteriormente, da Caixa Econômica do Estado De São Paulo.)
Fahda vestia-se só de roupas escuras: preto, ou marrom, ou cinza escuro. Era
séria e exigente. Seu coração estava mergulhado em saudade do caçula, Adib.
Mas, assim que tudo estivesse melhor, ele também viria pra junto deles.
E a loja começa
a ganhar força e a trilhar o caminho do sucesso. Alfredo traz no olhar e nos
gestos os séculos de comércio árabe. Quem é atendido por ele, com certeza
compra e volta a comprar. Simplesmente, cativante. Olhar puro, sério nos
negócios. Brincalhão nas conversações amenas. Atencioso e cavalheiro com a
freguesia. Respeitoso e da paz. Natural que a loja despontasse como uma das
melhores da cidade. Nem há rivalidade entre ele e Felipe. Sabem que haverá
fregueses para ambos os comerciantes.
Periodicamente,
Alfredo vai a São Paulo, encomenda o que necessita e compra um estoque farto e
diversificado. Acostuma-se a hospedar-se no Hotel D’Oeste, onde é tratado com
deferência e amizade.
Tudo corre como num sonho. Sua vida, em pouco
tempo, se transforma radicalmente. Das incertezas do passado à realização do
presente. Da privação dos primeiros tempos no Brasil, a um conforto na vida e à
abundância na mesa.
Felipe tinha uma
cunhada solteira. Alta, elegante, morena clara, bonita, mesmo. Era fatal que os
dois começassem a namorar. Namorar? Isto nem existia para os libaneses
imigrantes. Era noivado imediato. Assim, Alfredo se comprometeu com a jovem,
sua concunhada.

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