O casamento tinha sido um sucesso social. Os amigos e
parentes não se cansavam de elogiar a fina estampa dos noivos. Lamentavam a
ausência de fotógrafos em Piratininga. Êssar (não se esqueça de que Êssar e
Alfredo são a mesma pessoa: um é nome árabe, outro é ocidental) não ficou
chorando sobre o leite derramado, pois esta não era sua característica. Depois
do casamento religioso, não houve lua-de-mel, com viagem e tal. Não. Os tempos
eram difíceis, mas nada que refreasse a vontade do noivo. Tinha compras para
fazer em São Paulo, na Rua Florêncio de Abreu.
Arrumaram as malas, dobraram
cuidadosamente as roupas de casamento, colocaram-nas em valises, com mais umas
mudas de roupa e, com este pretexto de compras para a Casa Central, como
explicação para Fahda, dirigiram-se à grande cidade, embarcando nos vagões de
trem da EF Paulista.
Na capital ficaram hospedados no Hotel D’Oeste, o sempre
escolhido de Alfredo e cujo dono era seu amigo compreensivo e protetor. Quem
está sozinho na cidade grande, sabe como é bom poder contar com um amigo.
Alfredo sentia-se tão bem ao lado
de Sálua! Sentia-se o dono do mundo. Ia com ela a todos os lugares. Fazia as
compras para a loja em sua companhia, explicava-lhe os critérios de compra.
Depois passeavam, de mãos dadas, como duas crianças amigas. Num destes
passeios, agendaram, num estúdio de fotógrafo, um horário para tirar um
retrato, que eternizasse a magia e o encanto de seu casamento.
Vestiram-se, no próprio estúdio, com capricho e alegria.
Numa poltrona de braços brancos, ele sentou-se, elegante, altivo, o terno preto
de risca larga de giz, o lenço branco aberto em meio leque no bolso superior do
paletó de três botões, o cravo branco na lapela, os longos dedos da mão
esquerda seguravam os da direita, mãos fortes, grandes e belas. Sálua, em pé,
com a pequena e delicada mão apoiada no ombro de Êssar, já fazendo fulgurar não
só o diamante solitário, como também a aliança de ouro, larga e pesada. No
colo, uma fina corrente, cujo pendente, ficou na fotografia, escondido sob o
decote em U.
Deixaram o retratista, com a promessa de estar pronta a foto em
dez dias. Alfredo e Sálua não poderiam esperar em SP tanto tempo. Ficou
acertado que voltariam a Piratininga e, nas próximas compras, no mês
seguinte, Alfredo retornaria ao estúdio para apanhar as fotos. Mandara fazer
três cópias. Seus filhos sempre lhes agradeceriam o gesto. Eternizaram o
momento mágico da união de suas vidas.

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