segunda-feira, 21 de outubro de 2013

8 - O Casamento




    
 Os dias passavam rápidos e quentes. Era primavera, mas todo mundo sabe que primavera em outubro e novembro, no Brasil, é quente demais. É verão na pele, na carne.
      Os preparativos iam céleres. Felipe recusava-se a conversar com Alfredo. Afinal, a cunhada fora dispensada sem mais aquela. Bem que a noiva rejeitada tentara reatar o noivado. Antes da chegada de Sálua, esgueirara-se, mais de uma vez, pelo quarto de Alfredo. Ousada! Mas ele fora claro e resoluto. Sem volta. Sem perdão. Alfredo só pensava em Sálua, só queria Sálua em sua vida. A ex não se conformava. E, por isso mesmo, Felipe continuava revoltado. Não iria, nem ninguém de sua família, ao casamento.
      Sálua e as irmãs mandaram fazer seus vestidos. A costureira era uma verdadeira madame na arte da costura. E era mesmo chamada de madame: Madame  Adalmira Fontão, modista célebre das redondezas e a predileta de todos os vips da terrinha. Escolheu um vestido branco, com bordados de flor e folhas, na saia, no peito, junto ao decote singelo e nos punhos das mangas longas. Um véu preso por uma delicada guirlanda de flores de laranjeira cobria-lhe os cabelos como um chapeuzinho terminado por babados, o que lhe conferia um ar mais angelical e mais infantil. Um apanhado do tecido saía do alto, formando uma primeira capa, descendo nos lados numa faixa larga que ia até o cumprimento da saia. Outro véu, de  transparente, nascendo nas  costas, esvoaçava pelo corpo.
      Além desses vestidos, Dona Nina completou o enxoval com peças mais simples tanto para Sálua como para Alfredo.
      O terno de Alfredo, de risca de giz, e suas calças e camisas, seriam feitos por um alfaiate experiente.
      Tudo sairia muito bem. Os primos todos estavam felizes, a paz campeava entre eles. Adib, ainda solteiro, o caçula dos Nemes, animava todos com suas brincadeiras e com sua alegria. Alexandre já demonstrava que maravilhoso cunhado e amigo seria para Sálua. A figura da matriarca não era das mais amistosas, mas, mesmo assim, percebia-se que era de seu gosto esse casamento. Afinal, Sálua e irmãos eram seus sobrinhos. Ela, Fahda, era irmã de Salim, pai dos órfãos.
      Sálua não se dava conta de que, tanto mais se aproximava o casamento, tanto mais chegava também o dia da separação com as irmãs, que iriam morar na Argentina. Seu irmão, Sêmi iria ficar mais com ela, em Piratininga, mas teria que frequentemente visitar as irmãs no país vizinho.
      Marcaram as datas do casamento: 25 de dezembro, aniversário de Sálua, daquele ano de 1921, seria o casamento civil; e em 25 de janeiro de 1922 seria o religioso.
      25 de janeiro, aniversário de São Paulo. 1922, o ano da Semana de Arte Moderna. Que bom gosto! Como esquecer esta data? Como não lembrá-la? Como dissociá-la das grandes comemorações de aniversário da esplêndida metrópole? Ora, eles anteviam as coisas.
      O casamento civil foi realizado na casa de Êssar, com a presença de quase (Sad e família não foram) todos os familiares, Padre José Maria esteve também presente. A alegria era a tônica e Êssar não se cabia de felicidade.
      Sálua, discreta, sentia-se como num sonho. Era com ela que estavam acontecendo tantas coisas? Era dela este casamento, com este guapo rapaz, certamente cobiçado por metade das jovens de Piratininga? Ele estava muito lindo, num terno branco, de linho 120, seu tecido predileto, ideal para o clima quente. E ela estava resplandecente, num vestido azul, bordado com delicadas miçangas e canutilhos, que brilhavam menos que seus belos olhos. 
      Adma, Rosete e Sêmi abraçavam-na , desejavam-lhe felicidade. Alexandre e Maria sorriam e os parabenizavam. Ao lado de Êssar, bem mais alto que ela, olhando-o nos olhos, percebeu que a tão desejada felicidade poderia estar bem próxima, finalmente. Confiante, devolveu-lhe o olhar carinhoso e deixou que ele apertasse sua mão. Um calor inusitado, desconhecido, dominou-a. Um vermelho intenso cobriu suas faces. Êssar achou-a mais bela ainda. E, no encanto do momento, beijou-a na face, procurando fitar seus olhos. Inútil! Sálua, envergonhada desta ousadia do noivo, esgueirou-se entre os convidados e procurou asilo na companhia da irmã mais velha.
      Os dias sucediam-se céleres. E os preparativos para a cerimônia religiosa seguiam animados. Num piscar de olhos, estava-se no ano de 1922. E em outra piscadela, já no dia 25 de janeiro, dia da cidade de São Paulo.
      A cerimônia religiosa foi realizada na igreja da pequena cidade. Muitos curiosos acorreram à celebração. Uma grande dúvida pairava entre as moças de Piratininga: quem seria esta jovem, vinda do outro lado do mundo para roubar do convívio social o belo Alfredo? Seria tão bela assim? Seria casamento arranjado pelos parentes? Como é que conseguira fazer Alfredo romper um noivado legitimado pela família? Deveria ser ou muito bela ou muito poderosa. As perguntas sucediam-se. As hipóteses eram as mais diversas. Sálua seria filha de um sheik riquíssimo. O dote seria alto demais. E as especulações se multiplicavam.
     A curiosidade trouxera à igreja até crianças, como Carolina Sobral, na época com onze anos, e que seria, no futuro, a mãe do Osvaldo. Ela mesma narrou o casamento de Alfredo e Sálua, porque foi um marco na vida social de Piratininga. Um burburinho só agitava os quatro cantos do município. Ninguém estava disposto a perder esta celebração. Os irmãos, Alexandre e Adib, e os amigos de Alfredo, imigrantes e brasileiros, o ajudaram em tudo, principalmente nas brincadeiras. A alegria era senhora dos jovens corações.
      Êssar estava impecável: terno preto, risca de giz largo, com paletó de três botões,  um lenço branco, dobrado com as pontas abertas no bolso superior, um cravo branco na lapela, camisa de smoking, de colarinho alto para gravata branca borboleta. Rosto magro, uma leve brilhantina nos cabelos, olhos faiscantemente azuis, (quem conheceu não se esquece), um fino e cuidado bigode, porte ereto, alto, sobranceiro.
      Sálua entrara na igreja, conduzida por Sêmi. Seu coração batia mais que um tambor. Os olhos da cidade estavam sobre ela. Caminhava devagar, sabia que Êssar a esperava no altar. Os dias anteriores só serviram para comprovar o quanto Êssar a admirava. Eram delicadezas, atenções, olhares, rosas e flores vermelhas, gestos dedicados a ela. Um galanteio só. Impossível não confiar nele, em seus olhos perseguindo-a sempre, as mil gentilezas com que a brindava. E agora estava a poucos passos de unir sua vida à dele. Para sempre.
      Um sussurro de admiração ecoou na igreja, à entrada da noiva. Estava bela, encantadora.  Vestido perfeito até nos detalhes. A mão esquerda já ostentava o presente das bodas: um anel solitário de brilhante, que usou até o último dia de vida.. 
     Sálua, em poucos meses que estava no Brasil, já compreendia muito do que se falava, em vista de seu conhecimento de inglês. Mas, assim mesmo, a adaptação era difícil, não fora o carinho de Êssar. Ouvia à sua passagem a palavra linda e sabia o que significava. Mas o que lhe importava era ser feliz e fazer Êssar feliz. 
      Sentira, nestes primeiros tempos de convivência, que Fahda, sua sogra daqui a minutos, não era uma pessoa fácil de lidar. Era exigente e brava. Mas Deus e Êssar a ajudariam a ganhar a sua amizade e respeito.  O fato de ser tão jovem talvez fosse a causa da atitude vigilante de Fahda. Queria ensinar-lhe tudo, como se ela de nada soubesse na vida, como se os anos de internato só lhe tivessem dado um verniz de educação e preparo. Ah, se a sogra soubesse como era admirada na escola por tudo e em tudo que fazia. O tempo a ajudaria. Só pedia a Deus que não a fizesse sofrer mais do que já sofrera na infância.
      Para poder ser realizado o casamento, Êssar teve que lançar mão de um estratagema: aumentar, não se sabe com que tipo de documento, a idade da noiva. De quatorze anos, passou, numa penada, para dezessete.
      Sálua seguia pelo centro da igreja, ao som da Marcha Nupcial, com pensamentos desencontrados. Estes últimos meses passavam ante os olhos da memória como cenas cortadas de um filme. Tremia ao pensar na mudança radical em sua vida. Passo a passo, vencera aquela distância que a separava de Êssar. Estava agora à sua frente. Sêmi beijou-a na testa e entregou sua mão ao noivo, que a esperava, ansioso e exultante de alegria. Deram-se as mãos, trêmulos, olhando-se nos olhos e apertando os dedos entrelaçados. O véu do amor envolveu-os de tal maneira, que ficaram cegos a tudo que não fossem eles mesmos, só os dois e as palavras do padre ecoando pela igreja.
      O Padre José Maria celebrou o casamento, com emoção e sinceridade. Era seu amigo que se casava. Aquele amigo de cujas desventuras e trabalho rude fora testemunha. Aquele amigo que aprendera num átimo, movido pela determinação e pelo favor de Deus, a língua portuguesa, que ele, Padre José Maria, ensinara com dedicação e interesse.  Por isso celebrou com o maior fervor o sacramento e, na hora da bênção, invocou a presença de Jesus para santificar a união e proteger os noivos, até que a morte os separasse.

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