domingo, 13 de outubro de 2013

4 - Um diário e um anjo



      Esta é a história real do acontecimento mais importante da vida de Alfredo. (Ele adorava contar a todos este capítulo tão lindo que vivera.)

      Morava com sua mãe, bem perto da casa de Felipe. Fahda era enérgica e, ao mesmo tempo, doce. Quem a conheceu sabe que ela era dada às grandes paixões. Não falava português. Nunca falou nosso idioma, em seus quase noventa anos de vida, metade dos quais viveu no Brasil 
     Como os antigos árabes, conquistadores do mundo, idolatrava o idioma pátrio. Vivia recitando monólogos em árabe, sozinha na varanda. E, durante todo o tempo em que viveu no Brasil, recusou-se a falar uma palavra sequer na língua portuguesa. Possivelmente  as outras crianças, nossos amiguinhos, tivessem até medo dela. Roupas escuras, cabelos longos e lisos, presos num  rabo de cavalo, ou  num coque, sussurrando aquelas frases em língua estranha, gutural, de sentido inimaginável a ouvidos brasileiros. Feições sérias, olhos claros, boca de lábios finos, bem desenhados, mas onde não se via nem a sombra de um sorriso. Sabia, contudo, contar lindas histórias. Em árabe. Não nos perguntem como, mas acabávamos, seus netos, entendendo a história narrada. “Kêniamaken abuluzamen,” equivalente árabe de "Era uma vez, há muitos anos atrás...”  Quem ela amava, seria sempre protegido. Felipe não era seu filho. Era seu enteado, fruto do primeiro casamento de seu marido, Abussâmara,. Isto explica porque não morassem todos juntos. Felipe sempre teve um certo distanciamento de  Fahda, ( sim, era este seu nome. )  E  Alfredo, montou uma casa para viver com sua mãe. Assim, a guerra fria entre Fahda e Felipe teria uma trégua.

         A vida corria, Alfredo se esmerava no comércio. Sua loja vendia tudo o que se pudesse imaginar: de botões e tecidos a secos e molhados. Em seu estabelecimento, um fazendeiro, ou sitiante, ou mesmo um colono de fazenda encontrava tudo de que precisasse: arame farpado, pregos, parafusos, ferramentas do campo e da cidade etc. A costureira ali comprava suas linhas, os botões, as agulhas. E a dona de casa, desde sabonete, pasta de dentes a cereais e bebidas (Alice narrava desse modo.)

         Seu noivado parecia um caso consumado. Mas ele despejava num diário a narração dos acontecimentos de cada dia de namoro. Pois, sim, ele namorava. Pois, sim, tinha um diário. Logo aderiu aos costumes ocidentais e não se fazia de rogado. Como eram vizinhos e quase parentes, ele e a noiva viam-se amiúde. E Alfredo registrava nas páginas de seu caderno-diário os fatos importantes dos encontros. Numa página do diário, lá estava: “briguei com ela.” Na outra: “ brigou comigo.” Numa terceira: “brigamos.” E o diário aberto a esmo:” Mais uma briga.” E briga e briga e briga. Parou atônito com a descoberta: “Com esta mulher, nunca serei feliz.” Preocupado em como resolver tão grave problema, ficou cismando. Se rompesse o noivado, seria caso de guerra na família. A noiva era irmã de Rosa, esposa de Felipe. Não aceitariam de bom grado um rompimento de compromisso. Ele teria que enfrentar as reações de revolta que a quebra do noivado suscitaria. Poderia escrever já no seu diário que a coisa estava preta.
      ( Ah, a existência do diário de Alfredo sempre é um motivo de encantamento e de emoção. )
     Mas, houvesse o que houvesse, sua decisão estava tomada: recolheu-se ao quarto, já engendrando mil planos de cair fora desse compromisso. 
     Tranquilo, finalmente, dormiu, como os anjos. E com um outro anjo sonhou. Sonhou com sua prima, Sálua, com quem brincara na infância e a qual, pequenina, costumava carregar nos ombros, lá longe, nos campos do Líbano. O sentimento que o envolvia no sonho era de felicidade e de paz. Acordou. 
      Uma luz rasgou as trevas que cobriam seu coração. Uma alegria cálida brotou em seus olhos. Uma certeza inundou sua vida. Não teve nenhuma dúvida: seu Anjo da Guarda lhe mandara um recado. Confiava em seu Anjo da Guarda. E sempre sabia ouvi-lo. Sálua era seu destino. Sálua era sua felicidade.Sálua era sua paz.
      Sem hesitar, no mesmo dia, rompeu o noivado e deflagrou a guerra familiar. Relações cortadas. Caras feias de todo o lado. Não se importou. Pediu desculpas ao irmão, mas não poderia se casar com a irmã de Rosa. Não seriam felizes. Procurou não se sentir muito aborrecido com o agastamento das relações com seu querido irmão. Confiava que, em pouco tempo, tudo voltaria ao normal. E seriam amigos e companheiros como sempre.

     Ao mesmo tempo, investigou o destino de Sálua. Ficou sabendo que ficara órfã, de pai e mãe, com suas duas irmãs e seu único irmão. Sem hesitações, enviou uma carta a Adma, irmã mais velha de Sálua, pedindo Sálua em casamento. A resposta - chegou, pelo correio- era afirmativa. Sem delongas, Alfredo enviou à família Hamam as passagens para o Brasil, tendo como destino Santos, de onde partiriam para Piratininga, local em que se casaria com Sálua. 
      Seus olhos brilhavam, seu coração cantava com esse pensamento: e viveriam felizes para sempre. Keniamaken...

Nenhum comentário:

Postar um comentário