quarta-feira, 16 de outubro de 2013

6 - Barca bela

BARCA BELA


      Finalmente chegara o dia em que Sálua desembarcaria em Santos.
      Alfredo foi para lá, com a alma em tumulto de felicidade. Sua mãe, Fahda, o acompanhou, bem como seu irmão, o bondoso e compreensivo Alexandre. A hora estava próxima. Alfredo não resistia à vontade de encontrar-se com Sálua.  O problema era que o navio atracava longe e isso atrasaria o momento de vê-la. A ansiedade e o entusiasmo que o dominavam o fizeram alugar uma barca para ir ao encontro dela. E quem iria com ele? Nada menos que Fahda, sua mãe e o próprio Alexandre.
      Subiram ao barco e lá foram ao encontro das ondas do mar da felicidade. A pequena embarcação  parou ao lado do navio. E Alfredo, com acenos e gritos de alegria, chamava por seus primos, mas quem ele queria ver era... Sálua. Apareceu Adma na amurada do navio, acenando festiva e naturalmente aliviada, por encontrá-lo à espera. Depois chegou Sêmi, acenando e gritando palavras de felicidade e de carinho. Logo depois, apareceu Rosete. Mais acenos e risos. Só Sálua não aparecia. Onde estaria Sálua? O que fora feito dela? Por que não aparecia com seus irmãos? Alfredo começou a preocupar-se.           
      Sálua estava escondida, com o rosto avermelhado de vergonha, pedindo aos céus, a Deus, a Alá que um buraco se abrisse sob seus pés e a ocultasse de Alfredo, a quem já era prometida, fato que lhe causava profundo constrangimento. Era ainda uma menina, treze anos. Não sabia lidar com um noivado com esse primo, que ressurgira em sua vida. Lembrava-se dele, sim, que a carregava, nos ombros, brincando e correndo pelos campos de Marjeyoun. Mas agora já não era criança. Os anos de internato e a orfandade precoce a transformaram numa garota muito responsável e muito discreta. Cansou de pedir a Deus para que a terra se abrisse a seus pés e a engolisse, mas Ele não lhe atendeu as súplicas.
      Foi num misto de preocupação e de vergonha, que finalmente foi à amurada, cedendo aos pedidos de todos que assistiam à cena. Ruborizada, apoiou suas mãos na beirada, e olhou para baixo. Havia um barco bem próximo ao navio, com um jovem, alto, em pé, de terno branco. Com gestos largos e espalhafatosos, lhe acenava e lhe dirigia palavras de boas-vindas. Ahlaosahla! Como não sorrir, vendo aquela alegria, aquele contentamento, aquele entusiasmo, aqueles acenos exagerados, palavras loucas de amor chegando estropiadas aos seus ouvidos? Ruhi, albi, habib, iayune. Impossível não se render àqueles momentos de pura alegria e encantamento. Sorriu, divertida.
      Passados os momentos de verdadeiro desespero, de nervosismo e de aflição, quando cedeu finalmente aos pedidos de aparecer no tombadilho, não conseguia deixar de sorrir ao ver a figura esfuziante de Alfredo, com o paletó branco esvoaçando com o vento, gesticulando, rindo, gritando palavras de boas vindas.           
      Alfredo nem percebia que, em sua ansiedade por ver Sálua, quase levava o barco ao naufrágio. Fahda gritava para ele sentar-se, o barco estava prestes a virar. Realmente, a embarcação, com os movimentos agitados de Alfredo, inclinava-se perigosamente, ora para um lado, ora para outro. Fahda se desesperava. Mas o coração de Sálua  acalmou. Era órfã. Um costume antigo de casamento arranjado fora a saída, talvez a tábua de salvação para as três irmãs órfãs. Sálua fora pedida em casamento por Alfredo, seu primo, que, lá no Líbano, muitas vezes a carregara nos ombros. Era onze anos mais velho que ela. Como foi que Alfredo se lembrara dela? E para casar-se! Adma e Rosete estavam prometidas a seus primos Sago, que moravam na Argentina. Tudo estava arranjado, combinado, decidido.
      Sálua se encontrava com treze anos. Passara sua infância e começo da adolescência na escola americana, na cidade de Saida (Sidon) onde ficara até há pouco, quando os planos da família repentinamente foram mudados. Nestes anos todos, não só aprendera o idioma inglês, como aprendera a ser forte e a superar as agruras que a vida lhe oferecera tão cedo. Era naturalmente sábia e de uma inteligência invulgar. Mesmo com o coração ainda sangrando pela ausência dos pais e dos irmãos, soube aproveitar os ensinamentos que lhe eram oferecidos e tornar-se uma das alunas mais queridas e admiradas de sua geração.
      Nos últimos anos de internato, seu coração já sonhava com um amor. Um amor que a libertasse da amargura e da tristeza de ter perdido tão cedo os pais amados e dedicados. Olhava-se no pequeno espelho da escola e via sua imagem: grandes, expressivos e belíssimos olhos castanho-claros, boca pequena, bem desenhada com lábios perfeitos: nem grossos, nem finos demais. Uma pele fina, limpa, acetinada, clara. Dentes perfeitos, pequenos e alinhados. Estatura pequena, um metro e meio, corpo desabrochando. Um sorriso entre acanhado e franco, revelando a brancura de seus dentes. Cabelos castanhos, curtos, como se usava na época, levemente anelados, que brilhavam. Feições nobres, num rosto inesquecível de maçãs bem desenhadas.
      De repente, o pedido de casamento. Ela nem se lembrava de como era Êssar (Alfredo). Vagamente, recordava-se de um primo que gostava de brincar com ela e que era muito divertido. Seria ele? O destino não a favorecera muito. Primeiramente a orfandade e agora este casamento com alguém que ela nem sabia como era ou como agia. E se fosse casmurrão? E se fosse bravo e estúpido? Viera de um lar onde a educação imperava.  Ah, seu futuro era uma incógnita. Mas numa coisa podia confiar: Alfredo era seu primo e a respeitaria. E ela aceitaria seu destino e seria uma esposa tão perfeita quanto possível.
      Olhando a bela estampa de Êssar, pressentiu que era uma garota de sorte, mesmo tendo a desdita de ser órfã. Que homem interessante se tornara! Que alegria contagiante! Os olhos dele, cuja cor, a distância, seria impossível  distinguir, faiscavam, em busca dos seus. As palavras que gritava,“seja bem vinda”,“ahlaosahla” chegavam aos seus ouvidos, truncadas, mas ao seu coração íntegras e completas. E as nuvens negras, que a rodeavam há momentos atrás, afastaram-se dando lugar a um sol brilhante, tropical, caloroso, benfazejo.
      O encontro entre eles foi discreto, da parte de Sálua, e entusiasmado e vibrante por parte de Alfredo. Sentindo certa distância entre eles, Alfredo sentiu que precisava envolvê-la, precisava fazer que ela o admirasse. E, depois, conquistaria seu amor.
      Saindo de Santos, foram para São Paulo, onde ficaram num hotel, possivelmente o Hotel d’Oeste, no centro.
      No dia seguinte, depois de descansar da longa viagem, Alfredo convidou Sálua para um passeio de táxi. Logicamente bem acompanhados por Adma, Rosete e Sêmi. Sálua sentou-se ao lado de Alfredo. E lá foram eles pelas ruas já clássicas de São Paulo. Rua 15, a rua dos bancos, Rua Direita, Rua São Bento, Rua 25 de Março, ( a rua dos primos ), Av. São João, e, por onde passavam, Alfredo ia explicando as características da cidade,  ele que conhecia tão bem o centro, onde fazia compras para sua loja, principalmente, a Rua Florêncio de Abreu.  E a cada edifício alto e estonteante, para quem nunca saíra das cidades Judeith Marjeion e Saida (Sidon, cidade grande, mas nada que se comparasse à grandiosidade da que estava conhecendo), o coração de Sálua se maravilhava. Que terra próspera! E Alfredo afirmava, provocando Sálua, apontando ora um edifício, ora uma rua: “É tudo meu!!!” Sálua sorria e reconhecia que mesmo não sendo o dono de São Paulo, Alfredo, Êssar, era poderoso e envolvente.
      Um lugarzinho no coração de Sálua Alfredo sentiu que conquistara.
      Entretanto tudo que construíra durante os passeios por São Paulo parecia desabar quando foram visitar os parentes de sua noiva: Hamam, Gebara, Razuk e Samara.

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