Santo Anjo do Senhor,
Meu zeloso guardador!
No dia seguinte, resolveram visitar uns parentes de Sálua.
Todos bem postos, com roupas boas e cuidadas, tomaram um táxi e rumaram para as
casa dos parentes que moravam em SP.
Foram recebidos, em cada lar, com festas e alegria. Parentes
que, como eles, deixaram o Líbano e chegaram à nova terra, onde tantos já
tinham alcançado sucesso, pelo trabalho e determinação. E esses também já
estavam tranquilos, já desfrutavam de algum luxo e muito bem-estar.
Um dos primos de Sálua começou a rodeá-la, a encantar-se com
sua figura feminina e com seus sedutores e misteriosos olhos castanho-claros.
Alfredo começou a irritar-se com as seguidas perguntas que
ele fazia a Sálua. E onde estudara e onde vivera, se conhecera fulano, se
encontrara sicrano, se iria morar em São Paulo. Como? Iria morar em ...como é
que é? Piratininga??? Que é isto? Onde fica? É cidade pequena, atrasada! Fique
aqui, em São Paulo. (isto é: fique aqui na minha casa, case comigo, deixe esse
noivo pra lá).
Grrrrrr! Alfredo captou muito bem o significado das
perguntas e daquele atrevido convite. Grrrrrrr O sangue fervia em suas veias.
Serviu-se um cafezinho enquanto conversavam.
Alfredo (Êssar) já estava vermelho de raiva. Como quê?!!
Queriam roubar-lhe a noiva nas fuças? A noiva era dele, que ninguém se
arriscasse a intrometer-se. Tinha que dar um jeito de sair daquela casa, tinha
que tirar Sálua de perto desse gafanhoto. A empregada, em uniforme branco,
serve o cafezinho fumegante. Café brasileiro, xícaras de porcelana fina. Para
acalmar-se, Alfredo aceita uma xícara e,
ao levá-la à boca, os olhos azuis lançavam faíscas, uma raiva quase
incontrolável, em seu semblante fechado.
Ó Anjo da Guarda amigo, velando sempre
por ele! Não é que a xícara se desprendeu da asa, que ficou entre os dedos de
Alfredo? E o café??? Hã? O que aconteceu
com o café, negro, paulista, que estava transbordando na xícara? Ah, o café
banhou o terno branco de linho 120 de
Alfredo! Ele nem sentiu o quanto estava quente a bebida. Sentiu, sim, a mão
imponderável de seu Anjo da Guarda, que lhe dava o motivo para arrancar-se dali. Chamou os primos com a energia e a autoridade
de quem é o chefe, (Ah hã !), agarrou a
mão de Sálua e puxou-a para longe daquele casarão e longe, para sempre, daquele
sujeitinho mequetrefe.
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