segunda-feira, 14 de outubro de 2013

5 - Sálua





      Nem tinha sete anos de vida quando ficou órfã, mergulhada em lágrimas e consolada pela dor comum de seus irmãos: Adma, sua irmã mais velha, de quem seria sempre a melhor amiga, além dos horizontes e além da passagem do tempo; Sêmi, seu irmão mais jovem, cuja gentileza cativava e prendia; e Rosa, a caçula, muito bela e inteligente.
      O pai de Sálua, Salim Hamam, tivera o sonho de vencer na América. E, deixando a esposa Chahina Sago Hamam, a mais bela mulher de Judeith Marjeyoun, e os filhos, aventurara-se no Brasil, em busca de riqueza,  atraído pelas histórias de descoberta de ouro e de grandes oportunidades de negócios. Ora, ele era comerciante. E comerciante de pedras preciosas. Resolveu conhecer essas terras distantes e, se tudo corresse bem, logo chamaria a família para junto de si.
      Deus assim não quis, para tristeza e amargura de Chahina e de seus filhos. Após pouco tempo de estada, no Brasil, numa cidade do interior paulista, Pederneiras, Salim teve um enfarte fulminante.
      Quando Chahina soube que seu amado Salim havia partido para o outro mundo, desesperou-se e procurou, apesar da dor, cuidar das crianças e da propriedade. Infelizmente foi acometida de febre tifoide e, durante um bom tempo, ficou retida no leito. Assim que se sentiu mais forte, precisava inspecionar sua herdade, montou em seu cavalo, e, ainda fraca, foi orientando seus empregados. O sol impiedoso que a castigou durante o trabalho, embora protegida com chapéu e com mangas longas, recrudesceu a febre ainda latente, conduzindo-a, de novo, ao leito. Em poucos dias, Chahina deixou este mundo para seguir Salim. E assim as quatro crianças ficaram sós, órfãs de pais e de amor e de cuidados e de carinhos.
         Adma já se fez de mais velha e decidiu os destinos da família. Como Sêmi e Rosete eram ainda muito crianças, e Sálua estava em idade de iniciar seus estudos, matriculou-a numa escola americana e ficou em casa com os dois menores. Num arranjo familiar, ela e Rosa, mais tarde, ficariam comprometidas com seus primos, que moravam na Argentina. .
         Sálua, por este feliz desígnio do destino, foi enviada para uma escola americana, onde ficou interna durante seus estudos. Lá conviveu com outras garotas de sua cidade e formou grandes amizades. Era sincera, inteligente, dedicada aos estudos, comportada, educada, tão gentil, incapaz de maledicências ou de falsidades, que em pouco tempo se tornou querida de todas as colegas  e também dos professores. A nota máxima que conseguia nas disciplinas atestava o alto conceito que conquistara com sua sabedoria inata e com sua personalidade cativante. Na escola onde Sálua estudou, o comportamento abrangia muitos aspectos, desde aplicação às lições, realização dos deveres, prontidão na execução de tarefas, pontualidade na apresentação de trabalhos, higiene nos cadernos e trabalhos de pesquisa, higiene pessoal, respeito ao próximo, comunicação, comportamento ético, sociabilidade. Sálua orgulhava-se de ter conseguido sempre este conceito maravilhoso, cobiçado por todas as alunas.
      Na escola americana, Sálua aprendeu inglês. Tais são os desígnios de Deus! Como o aprendizado de uma língua ocidental foi benéfico à sua vida futura!  Ficou interna até os treze anos, quando...  Tchan tchan tchan:!!!  Alfredo, sob inspiração de anjos da guarda, o dele e o de Sálua, sonhou com ela e, num rasgo de predestinação, rompeu um noivado, iniciou outro e enfrentou, de um lado, a ira dos familiares rejeitados e, de outro, o espanto da comunidade piratininguense.
      Alfredo passava os dias sonhando com a chegada de Sálua. Mandara as passagens para toda a família, seus primos, Adma, Rosete, Sêmi e...Sálua. Combinou a viagem para Santos com sua mãe, Fahda, que, desde que Alfredo rompera o noivado, o apoiara destemidamente. Vamos lembrar que Alfredo era o noivo de Nagiba, cunhada de Felipe. Vamos lembrar também que Felipe, irmão de Alfredo, era enteado de Fahda, mãe de Alfredo, e que as relações familiares entre madrasta e enteado eram tão tranquilas como numa guerra fria.
      Alexandre também se juntou aos rebeldes pró Sálua e dispôs-se a ir a Santos esperar a futura cunhada e sua família. Os preparativos ocupavam os dias e as noites.
      Na cidade não se falava em outra coisa. Aquele moço lindo, loiro de olhos azuis, aquele gato rompera o noivado e imediatamente ficara comprometido com alguém, alguém que ninguém conhecia, alguém que morava lá do outro lado do mundo, uma turquinha, quem sabe bem feinha. E Piratininga, com tanta moça bonita, e ele vai escolher alguém de tão longe? Ó céus! Quanta dor de cotovelo Alfredo boa pinta não causou! Mas ele nem estava preocupado com os falatórios e os olhares esgazeados das moçoilas. O recado de seu Anjo da Guarda tinha sido tão veemente quanto o do anjo do sonho de José, sobre a Virgem Maria. Estava feliz, confiante, ansioso, seguro. Nunca se viu um noivo tão convicto de seus propósitos e de seus sentimentos, como ele.  E assim foi sempre.

Nenhum comentário:

Postar um comentário